Campo Grande - quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Atriz construiu mais de oito décadas de carreira e ficou conhecida pelo talento, bom humor e pela recusa em se aposentar
Michelly Perez - 18/08/2026 • 10:18
Foto: reprodução-internet
Antes de interpretar algumas das personagens mais marcantes da televisão brasileira, Laura Cardoso tinha seis anos e uma brincadeira favorita: vestir roupas, colocar chapéu, anel e brinco emprestados e esperar um bonde que não existia.
Moradora do bairro da Bela Vista, em São Paulo, ela e uma amiga se fantasiavam, sentavam na calçada e fingiam embarcar no bonde. Depois, corriam para “descer”. Era o teatrinho particular de duas meninas que ainda não imaginavam que, décadas depois, uma delas se tornaria uma das maiores atrizes da história do Brasil.
Laura Cardoso morreu aos 98 anos na noite de segunda-feira (17), em São Paulo, de causas naturais, deixando uma trajetória de mais de oito décadas dedicada à arte. Sua carreira começou no rádio, quando ainda era adolescente, passou pelo teatro, cinema e televisão e atravessou diferentes gerações de brasileiros.
E talvez seja justamente essa longevidade que melhor explique Laura: ela nunca pareceu muito interessada em ser apenas uma lembrança.
Laurinda de Jesus Cardoso nasceu em 13 de setembro de 1927. Aos 15 anos, decidiu que queria trabalhar como atriz e fez um teste na Rádio Cosmos. O começo foi no rádio, em uma época em que a televisão brasileira sequer havia sido inaugurada.
Sua estreia na TV aconteceu em 1952, na TV Tupi, no programa “Tribunal do Coração”. A partir daí, Laura acompanhou praticamente toda a evolução da dramaturgia brasileira. Passou por Tupi, Record, Excelsior e Cultura até chegar à Globo, em 1981, onde estreou em “Brilhante”.
Foram dezenas de novelas, filmes, peças e personagens. Entre os trabalhos que ficaram na memória do público estão “A Viagem”, “Mulheres de Areia”, “Irmãos Coragem”, “Salsa e Merengue”, “Belíssima”, “Gabriela” e “Chocolate com Pimenta”.
Mas, se dependesse dela, essa história poderia ter continuado por muitos anos.
Laura não gostava da palavra aposentadoria. Em entrevistas, deixou claro que não se enxergava como uma senhora afastada da vida artística e chegou a dizer que não era “a velhinha que faz tricô”. Para ela, trabalhar era parte essencial de estar viva.
Em 2017, depois de ficar três meses afastada das gravações por problemas de saúde, voltou a “Sol Nascente” e foi recebida com aplausos por colegas e pela equipe. A própria atriz dizia que sentia falta da rotina e não gostava de ficar parada em casa.
Apesar da imagem de grande dama da dramaturgia, Laura também cultivava um lado simples e bem-humorado.
Em uma entrevista à Folha, em 2023, ela falou sobre o prazer de viver, a família e a profissão. Disse que amava a carreira e gostava muito da própria vida. Mesmo depois de mais de oito décadas de trabalho, ainda demonstrava entusiasmo pelo ofício.
Longe dos estúdios, um dos lugares de que gostava de aproveitar era seu sítio no interior de São Paulo. A propriedade tinha jardim, árvores, flores, horta, capela e aquele jeito de refúgio de interior que combinava com uma artista que, apesar da fama, valorizava os momentos de descanso e convivência com a família.
E havia ainda uma característica que colegas sempre lembravam: Laura era disciplinada, generosa e muito presente no ambiente de trabalho. Tony Ramos, que conviveu com ela por mais de seis décadas, a chamava carinhosamente de “Laureta” ou “Laurinha” e a descreveu como uma verdadeira rainha da televisão.
Mesmo longe das novelas desde “A Dona do Pedaço”, em 2019, Laura não encerrou completamente a relação com a televisão. Em 2025, participou da vinheta de fim de ano da Globo. E, durante a gravação, fez questão de pedir ao diretor Adriano Melo para levantar da cadeira e cantar de pé ao lado dos outros artistas.
A cena tem algo de simbólico. Aos 98 anos, Laura ainda queria levantar, queria participar, queria estar no meio da cena e queria fazer parte.
Também em 2025, participou do curta-metragem “Dona Rosinha”, encerrando sua trajetória artística sem exatamente se despedir da profissão que tanto amava.
Laura também já havia falado sobre a própria morte. Em uma entrevista ao “Provocações”, em 2014, contou que gostaria de morrer dormindo e sem estar ligada a aparelhos. Também falou sobre reencarnação e sobre o desejo de viver em um mundo com mais justiça, igualdade e paz.
É difícil imaginar uma despedida mais coerente com uma mulher que passou a vida inteira recusando a ideia de parar.
Laura Cardoso atravessou o rádio, viu nascer a televisão, viveu a transformação das novelas, passou pelo cinema, pelo teatro e pela dublagem. Trabalhou com diferentes gerações de artistas e continuou sendo reconhecida mesmo quando já poderia simplesmente ter escolhido descansar.
Mas talvez a melhor imagem para lembrá-la não seja a de uma grande estrela diante das câmeras.
É a daquela menina de seis anos na calçada da Bela Vista, usando chapéu e acessórios emprestados, esperando um bonde imaginário para começar mais uma brincadeira.
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