Campo Grande - sexta-feira, 6 de novembro de 2026
Espaço em Corumbá reúne espécies nativas, aquáticas, aromáticas e ornamentais e recebe estudantes e visitantes
Michelly Perez - 03/11/2026 • 11:25
Foto: Divulgação UFMS
Muito além de embelezar o ambiente universitário, um jardim em Corumbá está ajudando estudantes a descobrir um universo que muitas vezes passa despercebido no cotidiano: a diversidade das plantas. Implantado na UFMS do Pantanal, o Jardim Didático funciona como uma verdadeira sala de aula a céu aberto, aproximando acadêmicos, alunos de escolas e visitantes da riqueza vegetal do bioma pantaneiro.
Desenvolvido por meio de um projeto de extensão coordenado pela professora de Botânica Vanessa Harthman, o espaço reúne diferentes grupos de plantas e permite aprender, na prática, sobre suas características, adaptações e importância para o equilíbrio ambiental.
Localizado em frente ao Laboratório de Botânica, o jardim foi idealizado para complementar as aulas teóricas e oferecer aos estudantes a oportunidade de observar espécies vivas, identificar estruturas e compreender as diferenças entre vegetais de ambientes distintos.
O espaço foi organizado em setores que facilitam a observação e o estudo da diversidade vegetal. Entre as espécies cultivadas estão monocotiledôneas, eudicotiledôneas, cactos, suculentas e plantas aromáticas, além de espécies aquáticas distribuídas em dois tanques.
A proposta é integrar o jardim às atividades de disciplinas como Anatomia, Fisiologia e Sistemática Vegetal. Dessa maneira, os acadêmicos podem observar as plantas diretamente no ambiente externo e depois aprofundar os estudos de suas estruturas internas com o auxílio de microscópios no laboratório.
Uma das experiências é comparar plantas terrestres e aquáticas, identificando como as condições ambientais influenciam suas características externas e internas.
Segundo a professora Vanessa, o contato direto com os vegetais torna o aprendizado mais significativo e ajuda a aproximar o conhecimento científico da realidade dos estudantes.
Além do ensino, o jardim tem uma missão importante: ajudar as pessoas a enxergarem as plantas de outra maneira.
A iniciativa busca combater a chamada cegueira botânica, fenômeno caracterizado pela dificuldade de perceber e reconhecer os vegetais presentes nos ambientes cotidianos.
A professora explica que, ao imaginar uma paisagem pantaneira com árvores, plantas aquáticas, onças, araras-azuis e jacarés, muitas pessoas tendem a destacar primeiro os animais, deixando a vegetação em segundo plano.
O problema é que as plantas são fundamentais para a manutenção da vida e do equilíbrio dos ecossistemas.
Ao conhecer diferentes espécies, os visitantes também descobrem suas aplicações alimentícias, aromáticas e medicinais, além de aprender a identificar plantas invasoras e compreender a importância da conservação ambiental.
A estudante Carla Martins acredita que o espaço pode transformar a maneira como as pessoas observam a natureza, despertando o interesse pelo cuidado e pela valorização dos vegetais.

O jardim também se destaca pelo envolvimento dos próprios acadêmicos em todas as etapas do projeto.
Desde a preparação do terreno, limpeza e organização dos canteiros até o plantio, irrigação, compostagem e manutenção, os estudantes participam ativamente da construção do espaço.
Nalanda Duarte, que acompanha o projeto desde o início, conta que continua envolvida nos cuidados semanais, incluindo podas, retirada de ervas daninhas e conservação das estruturas. Ela também contribui com mudas cultivadas em casa para ampliar a coleção.
Outros estudantes, como Antonielly Dique, Carla Martins e Leonel Lucas Moreira da Silva, também participam das atividades de manutenção, organização e recepção de visitantes.
O biólogo e servidor da Universidade Marcus Urquiza acompanha os trabalhos e destaca que o projeto estimula a curiosidade científica e o protagonismo estudantil.
Com a catalogação das espécies em andamento, os acadêmicos também terão novas oportunidades de aprender a identificar famílias, gêneros e espécies botânicas.
O projeto não atende apenas aos universitários. O espaço também integra as visitas educativas realizadas por escolas de Corumbá aos laboratórios do curso de Ciências Biológicas.
Durante as atividades, crianças e adolescentes podem conhecer diferentes espécies, observar suas características e aprender sobre a biodiversidade regional.
A proposta é aproximar a Universidade da comunidade e proporcionar experiências práticas que nem sempre estão disponíveis no ambiente escolar.
O jardim também pode ser utilizado em minicursos, atividades de educação ambiental e ações relacionadas a datas comemorativas, como a Semana do Meio Ambiente.
Apesar dos avanços, manter o espaço exige dedicação constante. Entre os desafios estão a aquisição de materiais de jardinagem, a adaptação de algumas espécies às condições ambientais e a conscientização da comunidade sobre a preservação do local.
Os estudantes relatam situações de descarte de lixo, pisoteio e retirada indevida de mudas, atitudes que podem comprometer o desenvolvimento da coleção.
A preocupação é que algumas espécies são difíceis de conseguir e podem representar uma contribuição importante para as atividades de ensino.
Para a equipe, preservar o jardim significa compreender que ele não é apenas um espaço de paisagismo, mas um ambiente de pesquisa, aprendizagem e educação ambiental.

Mesmo já utilizado em aulas e visitas educativas, o Jardim Didático continua em construção. A equipe trabalha na identificação das espécies e planeja ampliar as possibilidades de utilização do espaço em atividades acadêmicas e de divulgação científica.
Para a professora Vanessa, um dos resultados mais gratificantes é observar a surpresa dos estudantes ao conhecerem pessoalmente plantas que antes apareciam apenas nos livros ou nas explicações em sala de aula.
A expectativa é que o jardim se consolide como referência para o ensino de Botânica em Corumbá, fortalecendo a valorização da biodiversidade do Pantanal e despertando nas novas gerações o interesse pela natureza.
Mais do que ensinar a identificar plantas, o projeto pretende mostrar que observar, conhecer e preservar a vegetação é também uma forma de cuidar da vida.