Campo Grande - sexta-feira, 26 de junho de 2026
Rogério ganhou bolsa de estudos em uma das maiores escolas de São Paulo, dinheiro de patrocinadores, além de material de estudo. "Não sobrou nada"
Marcos Maluf - 22/10/2023 • 06:00
Para aqueles que ainda não conhecem a história, nós preparamos um fotodocumentário que você pode assistir logo abaixo, do contrário, recomendamos que desça a tela diretamente ao podcast.
Valdirene (mãe de Rogério), relatou que registrou boletim de ocorrência na polícia civil de Sidrolândia. Nós tentamos contato para saber sobre o andamento do caso e até o momento desta publicação não obtivemos uma resposta.
Trocando passos no chão de terra, na companhia de três “doguinhos”. Foi assim que fomos recebidos por Rogério Gonçalves Echeverria atualmente com 17 anos. Dono de um sorriso esperançoso, consegue soltar uma sequência de palavras toda vez que vê uma oportunidade de mudança, as ideias começam a fluir como se fossem uma história escrita. Não importa o problema ele sempre tem a solução.

Rogério exalta o amor pelos animais. “Eles sempre me acompanham”.
Essa história repleta de muita luz, aconteceu no município de Sidrolândia – MS, localizado a 60 km de distância da capital Campo Grande, mais precisamente na comunidade Jatobá. Foi lá que “o menino da lâmpada” (apelido que ganhou após repercussão) fez um de seus maiores projetos. Ele levou iluminação para mais de 60 famílias com material reciclado, com apenas 14 anos.
Muitas questões ficaram mal resolvidas durante a produção da história de Rogério, diante disso, nós tomamos a linha de uma nova apuração, decidimos fazer um podcast com um desdobramento bem delicado, cheio de exploração e abusos.
Vindo de uma família humilde, Rogério cresceu na comunidade Colônia da Conceição, com sua mãe e seus irmãos: Misael de 19 anos e Matheus de 21 anos. Foi por lá que permaneceu até os seus 12 anos. Sua mãe Valdirene Maria Gonçalves de 43 anos, em busca de uma vida com mais oportunidades, decidiu que juntamente com a sua família iria fazer parte de uma ocupação na então comunidade Jatobá.

Valdirene Maria Gonçalves, orgulhosa ao lado do seu filho.
Valdirene, explica que foi uma decisão difícil, porque ela já tinha informações de que não havia energia elétrica no local e por esse motivo não se tratava somente da necessidade de iluminação, mas sim sobre a superação de um trauma ocorrido na família antes mesmo do nascimento de Rogério. Ela perdeu uma filha em um acidente ocasionado pela chama de uma vela.

“Eu sempre fui diferente dos outros. pipa mesmo, era uma coisa que eu nunca tive interesse”.
Com pouco recurso, a cabeça fervilhando e com a vontade maior que seu tamanho, o menino chega na comunidade com a missão dada para si mesmo. “Antes de eu nascer, minha mãe me contou que a minha irmã morreu em um acidente provocado por uma vela. Eu tinha que fazer alguma coisa”. Explica o garoto Rogério, na época com 12 anos.
Andando com sua bicicleta pela cidade e já com um pouco de conhecimento em eletrônica, adquirido com um velho amigo, Walison Filho, quando ainda morava na antiga comunidade (colônia conceição), percebeu que havia muito material interessante jogado nas ruas e no próprio lixo. Rapidamente começou a reutilizar tudo na confecção de seus protótipos. Segundo ele, foram dezenas de tentativas, passando por diversos formatos, inclusive energia eólica, deixando a história ainda mais parecida com o filme: “o menino que descobriu o vento”. Mas segundo ele a região não tinha vento o suficiente para gerar energia.
Diante deste impasse, o menino precisava arrumar mais possibilidades. Ele decidiu oferecer seus serviços de manutenção para barracas de camelô e em troca ele recebia sucata de eletrônicos. “Durante o dia eu trabalhava, e a noite, na luz de uma vela, eu estudava tudo que conseguiu durante o expediente, “Eu usei meu inimigo para iluminar meu projeto”. Exclamou Rogério se referindo a vela que usava para iluminar seu trabalho noturno.

Mesmo com o trauma, ele usava luz de vela para trabalhar durante a noite.
Após várias tentativas, ele finalmente acerta o seu projeto. Um sistema com bateria, placa solar e led. Prontamente na mesma noite, decidiu iluminar toda a comunidade. Agora era um desafio diferente, como arrumar material suficiente para replicar o que ele criou? Afinal ele só tinha uma bicicleta e umas sucatas, o que para muitos seria nada, o pequeno “Rogerinho” viu dinheiro e oportunidade.
Ansioso e sem dormir na noite anterior usou as duas únicas coisas que tinha e montou uma caixa de som dentro de um caixote de verduras e pensou: “E se eu fizer anúncios com a minha bicicleta? Eu posso ganhar dinheiro, fazer exercício e ainda levar luz para as pessoas”. E foi assim, os anúncios foram um sucesso, ele recebia o dinheiro, comprava material e instalava casa por casa. “Algumas pessoas ajudavam comprando e eu só instalava, já outras mesmo eu dando todo suporte, não me tratavam muito bem”. Ele destaca, que muita gente no comércio e até empresários o ajudaram.

Na mesa o sistema com placa solar, bateria e led. Segundo ele, o melhor e mais sustentável de todos.
A vida do Rogério nunca mais foi a mesma, a repercussão nacional veio quando o apresentador Luciano Huck contou rapidamente sua história. Ele ganhou bolsa em umas das melhores escolas do Brasil, patrocínio de diversas marcas eletrônicas, e no meio desse turbilhão de coisas uma pessoa apareceu para assessorar a carreira brilhante que estaria por vir.
Sem dar muitos detalhes do que aconteceu, a mãe Valdirene contou que o filho chegou a ir para São Paulo estudar, e entre idas e vindas a pessoa, em questão, se aproveitou do garoto e tirou o pouco que ele tinha. “Na época eu fiquei bastante deprimido, a tristeza tomou conta de mim, eu era uma pessoa que fazia luz e não conseguia acender minha visão”. Lamenta o jovem Rogério, que está sem estudar desde 2020, ele parou na 7ª série do ensino fundamental, devido a sérios problemas emocionais.

“Mesmo eu dando o material e a mão de obra, muita gente ainda me tratava mal”
De volta a comunidade, e muito triste, ele mesmo tomou a iniciativa de se reerguer fazendo o que mais gosta. “Nao adiantava nada eu ter um monte de coisas e ainda morar em um barraco, eu dei prioridade para um teto digno”. O menino da lâmpada começou a fazer consertos em eletrodomésticos, a ideia foi um sucesso, ele conseguiu fazer uma casa e deu de presente para sua mãe. “Fiz vários serviços e algumas pessoas também me ajudaram com arrecadação, bens materiais a gente conquista, o teto é primordial”.
“O Rogério é tudo para mim, eu amo todos os meus filhos, mas eu tenho uma ligação muito forte com ele”. Comenta a mãe em tom de agradecimento sentada na varanda de sua casa.
O próximo passo é retomar os estudos em 2024. Segundo ele, a pior fase já foi superada e tudo que se passa na vida serve de lição, tanto as coisa boas como as coisas ruins. “A gente não pode deixar o passado morrer, a mesma luz que fiz no passado iluminou a minha vida no presente”.
O foi com um imenso silêncio, que eu encerrei a entrevista com o garoto mais inteligente que pude conversar em toda minha vida, um exemplo de persistência, superação e criação. Mas sem dúvida nenhuma a maior de todas as lições foi a capacidade de reinventar suas emoções, e eu encerro aqui com a certeza de que essa lição foi passada adiante.

“A minha luz nunca vai apagar, a solução sempre está em nossas mãos”
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