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Campo Grande - terça-feira, 23 de junho de 2026

Mais do que saúde, água e esgoto cultivam a cura transformando a Homex em comunidade modelo

Com as ideias fluindo em comunhão, tem família que construiu até piscina e retira o sustento do próprio quintal

Marcos Maluf e Michelly Perez - 31/10/2024 • 19:52

Um grande ciclo de produção e evolução sustentável chega por meio do saneamento. Foto: Marcos Maluf

 

Enquanto algumas pessoas procuram sentido em grandes palestras caríssimas de coaches renomados, outras desbancam e mostram que um “empurrãozinho” pode mover montanhas, como é o caso da comunidade Homex, que atingiu qualidade máxima em seis pilares sociais após a chegada da água potável e do esgoto.

O cenário em que a lona e a madeira eram protagonistas foi extinto, dando lugar a novas construções de alvenaria e, quem antes não tinha emprego, ganhou a possibilidade de empreender e até mesmo produzir seu próprio produto dentro da comunidade.

Casas de alvenaria afogam barracos de lona e deixam moradias de madeira solitárias. – Foto: Marcos Maluf

Segurança, sustentabilidade, saúde, educação, economia e inovação são a base que nem de longe fazia parte do alicerce da comunidade, afinal, como chamar de lar um lugar onde sequer tinha água potável? Graças ao projeto da empresa Águas Guariroba, a implantação de saneamento básico em tempo recorde trouxe um grande leque de possibilidades e transformou a vida de centenas de pessoas. Um exemplo de mudança que engloba todas as conquistas citadas é o de Ademar Francisco Mendes, de 64 anos.

Com o sentimento de pertencimento gerado pela chegada da conta de água impressa, agora oficializada com direito a endereço, Ademar e sua esposa Rosemar Dias Onça de Souza Mendes, de 58 anos, estão casados há mais de quatro décadas e sempre sonharam em ter uma moradia digna.

Com recursos escassos, a meta era ter uma casa com dois andares. “E se chegou esgoto e H2O em 80 dias, por que não podemos fazer nosso sobrado com piscina?”, questionou Ademar. Com uma grande “lâmpada” de ideia acesa em suas mentes, eles decidiram colocar a mão na massa usando materiais reutilizados.


“Eu sou meio curioso, meio inteligente e, quando eu vejo uma coisinha, eu já começo a pensar em usar em outra coisa. Eu fiz bico em uma escola no bairro Guanandi e trouxe as cerâmicas usadas, limpei e lixei e agora estão todas colocadas no meu banheiro. Minha sobrinha me deu umas bacias e pia, eu trouxe para a casa”, relembra Ademar.

Entrada do banheiro tem vista para a piscina. Segundo Ademar, é para cuidar dos netos – Foto: Marcos Maluf

Reunindo peças como um grande tabuleiro estratégico, a casa da família Mendes é exemplo de transformação. No quintal, cada gota de água que passa pelo sistema de irrigação com mangueiras reutilizadas dá vida a uma rica horta onde estão plantadas 23 espécies entre frutas e hortaliças, dentre elas o colorau, que é feito com a semente de urucum que, após colhido, moído e embalado manualmente, garante o sustento e é uma das principais rendas da família.

No balde na parte de trás da foto, tem semente de Urucum ainda sem processar. No menor, Ademar embala o colorau – Foto: Marcos Maluf

“Aqui tem de tudo, tem jurubeba, abacaxi, tomate, alface, limão, goiaba, caju, mandioca, quiabo e urucum. Eu planto, colho e faço o colorau caseiro. No mercado, vendem 10g por R$ 3 e eu vendo 80 g por R$ 5. Vendo bastante”, conta com os olhos marejados.

 

“Se tem aqui, não precisa sair para comprar fora”

 

Assim como Ademar, que vende saquinhos de colorau, Anture Matos de Oliveira, de 61 anos, com o intuito de fomentar a economia local da comunidade, decidiu juntar a experiência adquirida em 34 anos de trabalho no setor de hortas e transformar a varanda de sua casa em um sacolão de hortifrúti.

Sacolão da Pedra nasceu na varanda do Anture – Foto: Marcos Maluf

“Antes a gente vivia com dúvidas. Depois da chegada da água, o bairro começou a crescer, veio luz, o esgoto e eu vi que os moradores começaram a ajeitar as suas casas, fazendo muro, construindo as coisas e foi quando eu decidi abrir o sacolão”, disse o empresário, que exaltou seu conhecimento em horta e completou dizendo que além das vendas, ele dá dicas de adubações orgânicas para as pessoas que desejam cultivar em casa.

 

Quem caminha pelas ruas da Homex consegue enxergar um antes e um depois, as placas de vendas de bolos e salgados, empresas de festas infantis, pequenos depósitos de materiais de construção, salões de beleza, barbearias e conveniências, tanto as que já estão montadas, como aquelas que surgem por meio de aviso de “vende-se bebidas”, escritas em pequenas estacas de madeira.

Nas ruas, o clima de empreendedorismo se espalha – Foto: Marcos Maluf

De acordo com Anture, o espírito de empreendedorismo está tomando conta da população do bairro. “Isso é importante para o bairro crescer, muitos não vão deixar de comprar aqui dentro da comunidade para comprar fora, se aqui eles conseguem ter tudo o que precisam. Além de dar a oportunidade de emprego para o pessoal daqui mesmo. Neste começo, estamos buscando nos estabilizar, graças a Deus está dando certo. Eu quero fazer um sacolão com mercadorias, com produtos de mercado mesmo. Já até comprei as prateleiras e, se Deus quiser, vai dar certo”, reforça.

 

Qualidade de vida

 

Andrea Florentino de Oliveira, 44 anos, passou mais de 100 dias internada, entre a Santa Casa de Campo Grande e o Hospital Regional, com problemas cardíacos.

Debilitada e sem água tratada nas torneiras, ela tinha que puxar a água do poço de forma manual, mesmo se recuperando de uma cirurgia no coração.

Com as marcas de uma batalha que já terminou, Andrea carrega a cicatriz da cirurgia no peito – Foto: Marcos Maluf

“O poço é uma água que vem diretamente da terra, sempre tivemos muitas fossas que acabavam contaminando a água”, cita.

Responsável pelo projeto social “Meninos da Comunidade”, que leva aulas de vôlei e recreação para as crianças do bairro na praça em frente à sua casa, ela conta que agora consegue servir água geladinha durante os jogos.

Pneus foram reutilizados para contenção do campo de futebol onde acontece o projeto social. – Foto: Marcos Maluf

“Melhorou 100% aqui, nós temos muitas pessoas com a imunidade baixa, assim como eu, e foi ótimo. As crianças conseguem tomar água geladinha e principalmente, potável, entre cada jogo conseguem lavar as mãos. Como eu sempre digo, a favela venceu, hoje já não somos considerados favelados, invasores, hoje temos a nossa casa, água e luz legalizados. Está sendo uma transformação total, todos os dias temos uma nova criancinha nascendo, um novo Homex”, disse.

 

Educação e conscientização

 

A Escola Municipal de Educação Infantil Vivendas do Campo, que fica dentro da comunidade, também recebeu obras do Programa Escola Saneada, realizado pela Águas Guariroba. Com isso, os alunos podem beber água diretamente das torneiras dos bebedouros sem medo de ter diarreia ou problemas intestinais, problemas que lideravam as apresentações de atestado médico.

Alunos podem vivenciar na prática os benefícios da água tratada nas torneiras da escola. Foto: Marcos Maluf

“A chegada desse projeto foi fundamental para a preservação da saúde e o bem-estar da comunidade escolar. Proporcionou um ambiente educacional mais seguro, contribuindo para a saúde dos alunos e da comunidade, principalmente na prevenção de doenças”, explica a diretora da unidade, Guilhermina Godoy.

O trabalho na escola foi enriquecido por meio de uma horta, de onde as crianças e familiares conseguem usufruir dos produtos plantados durante as aulas de educação ambiental.

A importância da responsabilidade na produção agroambiental tornou possível o cultivo das hortaliças dentro de pneus. – Foto: PMCG

“Na reunião de pais, foi realizada a colheita das hortaliças, onde as famílias puderam levar para consumir em suas residências. Também foram promovidas práticas de higiene pessoais e sanitárias, com o objetivo de aprendizagem do uso de água limpa e de qualidade”, conta a diretora orgulhosa.

O cenário de dignidade oportunizado pela conquista do comprovante de residência também beneficiou a parte administrativa da Emei, que agora consegue fazer o rastreamento dos alunos de forma mais dinâmica.

“Com certeza ficou mais prático na hora de realizar a matrícula. Sem dúvida, contribui para melhorar o trabalho do responsável da secretaria, na hora de fazer a busca ativa e controlar a frequência do aluno”, finaliza.

 

A empresa

 

Mas tantos avanços não comprometeriam o abastecimento da cidade? Não! A empresa possui um inovador sistema de inteligência artificial que monitora qualquer tipo de vazamento e variação da rede.

Todo o processo é acompanhado na sala do Centro de Controle de Operações (CCO), dentro da Águas Guariroba. Quando um alerta toca, detectando uma grande queda de pressão, rapidamente uma equipe se desloca a fim de sanar o problema.

Central de monitoramento conta com software (Takadu) de controle. Foto: Marcos Maluf

De acordo com o Instituto Trata Brasil, Campo Grande é a segunda capital do Brasil com o menor índice de perdas de água. A marca de 19,8% é resultado de um Programa de Redução de Perdas, implantado desde 2006. A água poupada seria capaz de abastecer a cidade por cinco meses.

No dia 28 de outubro, a concessionária conquistou o troféu Quíron Diamante do Prêmio Nacional de Qualidade em Saneamento (PNQS), na categoria AMEGSA – As Melhores em Gestão no Saneamento Ambiental Nível III classe Mundial. O prêmio é considerado o “Oscar” nacional do saneamento.

Gabriel Buim, diretor-presidente da Águas Guariroba, conta orgulhoso que foram necessários somente 80 dias de obras para levar dignidade e desenvolvimento para mais de cinco mil pessoas da Homex.

“Foram 14 quilômetros de rede de esgoto e 15 quilômetros de rede de água instalados em tempo recorde. A chegada dos serviços no bairro reforça o compromisso da concessionária em levar saneamento básico para toda Campo Grande”, cita.

Água, esgoto e a construção de um novo lar. Ao fundo, restos do antigo barraco. – Foto: Marcos Maluf

O gestor confirma que a instalação trouxe transformação em diferentes pilares de desenvolvimento e até na valorização imobiliária.

 


Para Bia Rodrigues, coordenadora de Responsabilidade Social da Águas Guariroba, os avanços começam a ser palpáveis na Comunidade da Homex, ela confirma a importância do acompanhamento multidisciplinar realizado pela Concessionária.

A gestora reforça que a empresa se preocupa em levar capacitação social juntamente com o trabalho de estruturação. À exemplo disso são os cursos que, além de conhecimento, promovem a geração de renda extra aos moradores.

Para o mês de novembro, Bia garante que a comunidade vai sediar o “Prospera”, que é uma ação desenvolvida em conjunto com o Instituto Aegea, que levará serviços de check-ups de saúde, exames e oficinas.

 

Redução de 40% nos crimes

 

De acordo com informações repassadas pelo Tenente-coronel do 10º Batalhão da Polícia Militar, responsável pelo radiopatrulhamento da região, estatísticas deste ano já revelam uma redução de -42,3% nos crimes de roubos e -21,6% nos crimes de furtos e um dos responsáveis para tal conquista foi o investimento em saneamento básico.

Até as crianças podem caminhar livremente pelas ruas da comunidade. – Foto: Marcos Maluf

“Sempre que o Estado, por meio de determinados serviços públicos, chega a uma localidade, especialmente com saneamento e iluminação, há um movimento recíproco da própria comunidade em melhorar aquele ambiente. Da nossa parte, na segunda quinzena de setembro deste ano, a Polícia Militar, através dos investimentos do governo do Estado, acrescentou 75 novos policiais militares ao 10º BPM. Nesse sentido, estamos certos de que o investimento, associado à assertiva distribuição do efetivo policial resultou em uma maior presença e visibilidade da PM em toda a região, inclusive naquela comunidade, reduzindo os índices de criminalidade e gerando segurança”, explicou.

 

Desenvolvimento que contagia

 

E para mostrar que os avanços na Homex também estão contagiando os moradores dos bairros próximos, Regina Mateus da Silva, de 49 anos, do lar, carregou a experiência obtida no curso da “Bolha de Sabão”, ministrado na escola da Homex, para dentro da sua casa localizada no Bairro Jardim Centro Oeste.

Regina ficou sabendo do curso através da filha, que mora no condomínio da comunidade, e o ensinamento obtido ressignificou a forma de fazer o produto.

“Eu até fazia sabão antes, mas não tinha essa qualidade, eu não sabia reutilizar o óleo e muitas vezes eu perdia o ponto do sabão. Agora as barras também ficaram mais clarinhas e o uso é maravilhoso”.

Três litros de óleo rendem entre 20 e 30 barras de sabão. – Foto: Marcos Maluf

Questionada, ela ainda comenta que já é possível ver uma melhoria na região, principalmente quando se fala sobre limpeza urbana e conscientização ambiental. “A gente percebe que nas ruas já não têm mais entulhos, sujeira, anteriormente já até denunciamos alguns moradores e agora notamos essa mudança”, finaliza.

Projetos sociais como o “Bolha de Sabão” se espalham em um horizonte de possibilidades e alcançam pessoas de bairros vizinhos. – Foto: Marcos Maluf

Toda e qualquer ação tem efeito colateral dentro de um sistema, basta ter o olhar e decifrar. As benéficas, por exemplo, têm a obrigação de aparecer e motivar como uma grande corrente de humanidade. O básico muda vidas! E não, não devemos nos contentar somente com o básico, mas a felicidade está em saber que o básico marca um grande começo. (Opinião – Revista A Foto) 

 

 

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