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Campo Grande - quinta-feira, 25 de junho de 2026

“Sabemos que todo ano temos estiagem, então porque não prevenir antes?”, frisa brigadista do Pantanal

Grupo de voluntárias atua há quatro anos e pontua que é preciso saber a hora de avançar e a de recuar contra o fogo no bioma

Michelly Perez - 06/08/2024 • 06:00

As queimadas do Pantanal deixam rastros de devastação e cicatrizes que vão muito além dos estragos na fauna e na flora de Mato Grosso do Sul. A fumaça, que dificulta a respiração, retornou neste ano, trazendo medos e revivendo o desespero dos moradores de Corumbá. Em meio a tudo isso, um grupo formado por sete mulheres decidiu que mesmo com o medo e o nó na garganta era necessário atuar.

Para a revista A Foto, Virgínia Paes, presidente da Associação de Mulheres da Área de Proteção Ambiental (APA) Baía Negra, em Ladário (MS), relembra o início da brigada voluntária. Mãe de oito filhos, (seis homens e duas meninas) e viúva, ela cita que teve que exercer o papel de pai e mãe, hoje a filha caçula tem  16 anos e aprende com a mãe que as mulheres podem chegar onde elas quiserem.

“A ideia de formar uma brigada voluntária dentro da nossa comunidade existe há quatro anos, ela surgiu em 2020, com a grande queimada do Pantanal, quando tivemos a perda total do nosso bioma e não tínhamos muito o que fazer, e ficamos muito preocupadas, porque moramos dentro de uma área de reserva, moramos no Pantanal e ver tudo isso sendo destruído pelo fogo foi muito triste. Então surgiu a ideia de formarmos uma brigada”, conta.

Na imagem Virginia e equipe prontos para o combate. Foto: Arquivo Pessoal

A equipe atualmente é formada por sete mulheres e quatro homens. Eles receberam treinamento e capacitação da Prevfogo, todos possuem diploma de brigadista e estão prontos para atuar. O combate está longe de ser uma tarefa fácil e a brigadista destaca que o medo diante de algo tão intenso como as queimadas é inevitável.

“Atuar dentro de uma mata, contra o fogo e dentro do pantanal que a gente sabe que estamos correndo risco de picada de insetos e cobras, tanto durante o dia, quanto a noite. Não é fácil, é assustador, ficamos tensas, temos todo cuidado tanto com a gente, é o nosso foco. Temos que saber avançar, mas também a hora de fazer a retirada, pois com o fogo não se brinca”, pondera.

Nas redes sociais imagens do fogo em Corumbá durante as festas de São João ganharam repercussão nacional. Confira:

(Reprodução @diego_viana_patanal)

Questionada sobre algum momento dos últimos quatro anos, que marcou a sua trajetória, Virginia lembra que as piores lembranças, além de inalar a fumaça, dificuldade para respirar, tosse, os olhos lacrimejando estão nas memórias dos animais consumidos pelo fogo e na sensação de impotência, em não conseguir ajudar e resgatar a todos.

“Lembro que passei por momentos muitos tristes, agonizantes, nós sentimos, moramos em uma área de reserva e temos todo o cuidado com os nossos animais, então quando eu entrei em uma área de queimada numa baia com lama e entramos com tudo naquele lugar, eu me deparei com uma sucuri agonizando, toda queimada, foi o momento mais triste que eu já vi e vivi. Então, quem enfrenta tudo isso, e não consegue fazer quase nada para salvar os animais é muito triste. Você ver o animal e não poder fazer nada. Lembro que nesse dia me ajoelhei e comecei a chorar, é como se a nossa pele estivesse queimando não é fácil”, conta entre lágrimas.

Com filhos e a família esperando em casa, a brigadista confirma que essa é sem dúvidas, a parte mais sensível. Todas as vezes ao sair de casa ela sabe que os riscos que enfrentará serão inúmeros. A região onde ela atua está rodeada por onças-pintadas e outros animais.

“Essa é a parte mais sensível, deixamos nossos pais e nossos filhos muito apreensivos, ficamos tensos, eles se preocupam, eles a todo momento nos perguntam como estou, essa é a parte mais sensível porque quando entramos na mata não sabemos o que nos aguarda, na nossa área temos muita onça-pintada, convivemos com ela o tempo todo e sabemos dos riscos e a família fica preocupada, mas, ao mesmo tempo, sentem muito orgulho da gente, de ter uma mãe brigadista”, frisa.

Brigadista reforça que mesmo consciente dos perigos que enfrenta ela não desiste. Foto: Arquivo Pessoal

Em um  meio que exige tanto esforço físico, Virginia Paes conta que já sofreu preconceito por ser mulher, mesmo assim, pontua que todos os questionamentos sobre a sua capacidade em liderar a brigada e em lutar contra o fogo a fizeram e a fazem cada vez mais forte e consciente de que é capaz de seguir enfrentando as queimadas e reflorestando o bioma.

“Confesso que já passei não como brigadista, mas por ser mulher, por ser presidente de uma comunidade e formar uma diretoria somente de mulheres, trabalhar dentro de uma mata com corte de Leucena derrubando uma árvore que é invasora no nosso Pantanal e ter que escutar que mulher não consegue, que não tenho força, que sou mais fraca. Mas eu não me vejo assim, sempre penso que vou conseguir, vou cair, mas vou levantar mais forte, em nenhum momento eu abaixei a minha cabeça porque eu sei que as mulheres devemos lutar pelos nossos ideais e sonhos”, finaliza.

 

 

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