Campo Grande - terça-feira, 23 de junho de 2026
Reincidência recorde expõe armadilhas do crédito fácil, uso do FGTS e avanço das apostas como fatores que pressionam famílias
Michelly Perez - 05/05/2026 • 10:23
Foto: Marcos Maluf
O aumento da inadimplência em Campo Grande tem revelado um problema que vai além das dívidas: a dificuldade de sair delas. Dados do setor varejista apontam que oito em cada dez consumidores que conseguiram limpar o nome voltaram a ficar inadimplentes em menos de um ano — um ciclo conhecido como “efeito porta giratória”.
O fenômeno acende um alerta no momento em que o governo federal discute novas medidas de renegociação, como o Desenrola 2.0. Na prática, especialistas apontam que apenas renegociar débitos não tem sido suficiente diante de um cenário marcado por crédito fácil e juros elevados, que acabam empurrando o consumidor de volta para o endividamento.
Entre os pontos de maior preocupação está o uso do FGTS como alternativa para quitar dívidas. Para entidades do comércio, a medida exige cautela, já que o fundo é considerado uma reserva essencial para momentos de desemprego ou emergência.
Outro fator que tem pesado no orçamento das famílias é o crescimento das apostas online. Plataformas digitais, cada vez mais populares, têm sido apontadas como um “ralo financeiro”, desviando recursos que antes eram destinados a despesas básicas.
O impacto, segundo o setor, vai além das finanças e atinge diretamente a segurança alimentar e a estabilidade das famílias.
Para o presidente da CDL Campo Grande, Adelaido Figueiredo, o problema está na combinação de fatores. “O consumidor consegue limpar o nome, mas logo em seguida encontra crédito disponível com juros muito altos. Sem planejamento, isso vira uma nova dívida rapidamente”, afirma.
Ele também destaca o risco de comprometer o FGTS e o avanço das apostas como agravantes. “São decisões que podem trazer alívio momentâneo, mas aumentam a vulnerabilidade no futuro”, alerta.
Diante desse cenário, o setor faz um alerta duplo:
A análise do comportamento da inadimplência na Capital indica que o principal gargalo está no crédito financeiro, especialmente no uso do rotativo e em condições pouco sustentáveis.
O resultado é um ciclo difícil de romper: o consumidor renegocia, volta a consumir, se endivida novamente e retorna às listas de inadimplentes.
O alerta é claro: mais do que limpar o nome, o desafio em Campo Grande hoje é evitar cair novamente nas armadilhas do crédito, dos juros altos e de gastos que comprometem o básico dentro de casa.
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