Campo Grande - segunda-feira, 6 de julho de 2026
No Julho Âmbar, mães e pais encontram na partilha da dor um caminho para manter viva a memória
Michelly Perez - 03/07/2026 • 09:37
Foto: Magnific
Depois que as flores murcham, as mensagens diminuem e a rotina volta ao normal para quem está ao redor, permanece uma ausência que não encontra explicação. No quarto que continua intacto, nas datas que insistem em chegar e nas lembranças que surgem sem avisar, mães, pais e familiares aprendem que o luto pela perda de um filho não tem prazo para terminar.

É justamente para acolher essa dor silenciosa que a Associação dos Amigos das Crianças com Câncer de Mato Grosso do Sul (AACC/MS) mantém o grupo Transformando a Dor, criado para oferecer escuta, apoio emocional e um espaço onde a saudade pode ser compartilhada sem julgamentos.
A iniciativa ganha ainda mais significado durante o Julho Âmbar, campanha dedicada à conscientização sobre o luto parental, realidade vivida por milhares de famílias brasileiras que, muitas vezes, enfrentam a perda em silêncio.
“Ao longo do tempo, muitas mães nos dizem que as pessoas deixam de perguntar sobre seus filhos, como se falar deles aumentasse a dor. Mas acontece justamente o contrário. Poder lembrar, contar histórias e dizer o nome de quem partiu faz parte do processo de seguir vivendo”, explica a psicóloga da AACC/MS, Rozenilda Barbosa.
Os encontros do grupo acontecem principalmente de forma on-line e reúnem familiares que passaram pela mesma experiência. Ali, não há necessidade de esconder o sofrimento nem de aparentar força. O simples fato de encontrar quem compreende a dimensão dessa perda torna o caminho menos solitário.
Além das reuniões em grupo, a instituição oferece acompanhamento psicológico individual para quem precisa de um suporte mais reservado. O atendimento faz parte do trabalho desenvolvido pela equipe de Psicologia da AACC/MS, que acompanha pacientes e familiares desde o diagnóstico do câncer, durante o tratamento e também quando a doença vence a batalha.
Para a presidente e fundadora da instituição, Mirian Comparin Corrêa, o cuidado não termina com a despedida.
“Quando uma criança passa pela AACC/MS, ela deixa marcas em todos nós. E quando uma família enfrenta essa perda, continua precisando de acolhimento. Ninguém deveria atravessar uma dor tão profunda sozinho”, afirma.
Embora o Julho Âmbar volte os olhares para quem ficou, a campanha também reforça a importância da informação e do diagnóstico precoce do câncer infantojuvenil.
Segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar cerca de 7.560 novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028. O câncer continua sendo a principal causa de morte por doença entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos.
Responsável pelo Centro de Tratamento Onco-Hematológico Infantil (Cetohi), o oncologista pediátrico Marcelo dos Santos Souza destaca que identificar rapidamente os primeiros sinais faz toda a diferença.
“Quando o diagnóstico acontece precocemente e o tratamento é realizado em centros especializados, as chances de cura podem ultrapassar 80%”, explica.
Entre os sintomas que merecem atenção estão febre persistente, manchas roxas sem causa aparente, dores constantes nos ossos, perda de peso, vômitos acompanhados de dor de cabeça, alterações na visão, perda de equilíbrio e aparecimento de caroços pelo corpo, principalmente na região abdominal.
Há 28 anos, a AACC/MS acompanha crianças e adolescentes em tratamento oncológico e oferece suporte às famílias em todas as etapas da doença. Ao longo desse período, mais de 2,2 mil pacientes com câncer passaram pelo Centro de Tratamento Onco-Hematológico Infantil (Cetohi), referência em Mato Grosso do Sul.
Somente em 2025, a instituição realizou quase 18 mil atendimentos multiprofissionais, acolheu 323 crianças e adolescentes, registrou mais de 6 mil hospedagens e distribuiu mais de 1,3 mil cestas básicas e sociais às famílias atendidas.
Mas, para quem permanece, o trabalho mais delicado começa justamente quando todos acreditam que ele terminou.
No grupo Transformando a Dor, falar sobre quem partiu não significa permanecer preso ao sofrimento. Significa reconhecer que o amor continua existindo, mesmo diante da ausência.
Porque, para essas famílias, esquecer nunca foi uma opção. O que elas procuram é encontrar forças para seguir vivendo enquanto mantêm viva a memória de quem deixou saudades.
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