Campo Grande - domingo, 9 de agosto de 2026
Terapia experimental fez ratos voltarem a andar em poucas semanas e pode representar um novo horizonte para pacientes com lesões medulares
Michelly Perez - 05/08/2026 • 08:51
Foto: USP
Uma terapia experimental desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) pode representar um avanço promissor no tratamento de lesões na medula espinhal, uma das condições mais incapacitantes da medicina.
Utilizando células-tronco retiradas da mucosa do nariz, cientistas conseguiram acelerar a recuperação de movimentos em ratos com danos na medula, reacendendo a esperança de uma futura aplicação em humanos.
Os resultados fazem parte de uma pesquisa conduzida em diferentes centros da USP e ainda estão em fase pré-clínica, ou seja, foram obtidos apenas em animais. Apesar disso, os pesquisadores classificam os achados como animadores diante da escassez de tratamentos capazes de regenerar o tecido nervoso.
Hoje, pessoas que sofrem lesões graves na medula, geralmente provocadas por acidentes de trânsito, quedas ou traumas, contam apenas com terapias de suporte, como medicamentos, cirurgias e fisioterapia. Ainda não existe um tratamento capaz de restaurar de forma efetiva as conexões nervosas perdidas.
A aposta dos cientistas está nas chamadas células ectomesenquimais, presentes na mucosa olfatória — tecido localizado dentro do nariz e responsável pelo olfato.
O interesse por essas células ganhou força durante a pandemia de covid-19. Ao observar que muitas pessoas recuperavam naturalmente o olfato após perderem esse sentido, pesquisadores passaram a investigar como ocorria esse processo de regeneração.
A resposta estava justamente nessas células-tronco, capazes de renovar continuamente a mucosa olfatória, um dos poucos tecidos do organismo com intensa capacidade de regeneração.
Além disso, elas apresentam outra vantagem: podem ser obtidas por um procedimento relativamente simples e pouco invasivo, diferente de outras fontes de células-tronco, como medula óssea e cordão umbilical.
No estudo, 60 ratos foram divididos em cinco grupos. Os animais sofreram uma lesão controlada na medula espinhal e receberam diferentes tratamentos.
O grupo que recebeu as células da mucosa nasal apresentou os melhores resultados. Segundo os pesquisadores, os animais começaram a recuperar os movimentos e voltaram a caminhar antes da terceira semana de acompanhamento, desempenho superior ao dos demais grupos.
Os cientistas explicam que as células não substituem o tecido lesionado. Em vez disso, elas liberam moléculas capazes de estimular o próprio organismo a reparar os danos.
“Elas funcionam como uma espécie de fábrica de substâncias regenerativas, criando um ambiente favorável para que os neurônios sobrevivam e reconstruam suas conexões”, resume o estudo.
Apesar do resultado considerado promissor, os pesquisadores alertam que a terapia ainda está distante de ser utilizada em pacientes.
Os próximos passos serão compreender melhor os mecanismos moleculares envolvidos e desenvolver estudos que permitam adaptar o tratamento para humanos.
A expectativa é que o conhecimento obtido ajude, no futuro, no desenvolvimento de medicamentos ou terapias celulares voltadas à recuperação de pessoas com lesões medulares.
Lesões na medula espinhal figuram entre as condições neurológicas mais difíceis de tratar porque o sistema nervoso central possui baixa capacidade de regeneração.
Por isso, qualquer descoberta que consiga estimular o crescimento de novos neurônios ou favorecer a recuperação das funções motoras desperta grande interesse da comunidade científica.
Embora ainda não represente uma cura, a pesquisa da USP reforça que o caminho para recuperar movimentos após uma lesão medular pode passar por um lugar improvável: o interior do nariz.