Campo Grande - terça-feira, 11 de agosto de 2026
Governador de Mato Grosso do Sul cobra reformas estruturais e maior integração no combate ao crime organizado
Michelly Perez - 11/08/2026 • 10:18
Foto: Saul Scharann
A pouco mais de dois meses das eleições, o governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (Progressistas), defende a união das forças de direita no segundo turno da disputa presidencial e propõe mudanças na estrutura política e econômica do país. Em entrevista à revista Veja, o governador criticou o que considera excesso de disputas ideológicas no debate nacional e afirmou que o Brasil precisa priorizar equilíbrio fiscal, competitividade, investimentos e reformas estruturais.
Candidato à reeleição após ter o nome aprovado em convenção partidária, Riedel citou a própria composição política em Mato Grosso do Sul como exemplo de convergência. O grupo reúne PP, União Brasil, PL, Republicanos e outras legendas.
Segundo o governador, a articulação estadual seria resultado da construção de um projeto administrativo e dos resultados alcançados durante sua gestão. Entre os fatores que, na avaliação dele, contribuíram para a união estão o crescimento econômico, a redução da pobreza extrema, a ampliação dos investimentos e os baixos níveis de desemprego.
“Quando se entregam resultados, as forças políticas tendem a convergir em torno do projeto”, afirmou.
No cenário nacional, porém, Riedel reconhece uma fragmentação maior entre os grupos de direita. Mesmo assim, acredita que as diferenças deverão ser superadas na segunda etapa da eleição.
“Acredito que no segundo turno haverá uma reunião natural em torno de uma candidatura única desse campo”, declarou.
Apesar de manter relações políticas com outros governadores identificados com a direita, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema, Riedel decidiu apoiar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). Segundo ele, a escolha ocorreu durante as convenções partidárias e refletiu a composição política formada em Mato Grosso do Sul.
Questionado sobre as investigações envolvendo o Banco Master e possíveis repercussões políticas sobre nomes como Flávio Bolsonaro e o presidente nacional do PP, Ciro Nogueira, o governador defendeu que eventuais responsabilidades sejam individualizadas e apuradas pelas instituições.
Riedel afirmou ainda que é necessário separar fatos de narrativas difundidas nas redes sociais e se posicionou contra julgamentos antecipados.
“As instituições e os partidos estão acima das pessoas”, afirmou.
Embora esteja alinhado eleitoralmente com partidos de direita, Riedel rejeita a definição de antipetista. Segundo ele, sua posição está mais relacionada a uma divergência sobre o modelo de Estado e a condução econômica defendidos pelo PT.
“Não gosto dessa definição. Não sou do ‘anti’”, disse.
O governador afirmou que considera envelhecida a agenda econômica associada ao Partido dos Trabalhadores diante das mudanças na economia internacional e na estrutura produtiva brasileira.
“A agenda econômica defendida pelo PT envelheceu”, avaliou.
Para Riedel, o país precisa avançar em equilíbrio fiscal, competitividade, modernização administrativa e crescimento sustentado. Ele também criticou o que considera uma concentração excessiva do governo federal em questões de curto prazo.
“Precisamos pensar menos em agendas de governo e mais em agendas de Estado”, defendeu.
O governador também apontou o excesso de disputas ideológicas como um dos obstáculos para o avanço de reformas.
“O Brasil ficou muito capturado pelas narrativas políticas e ideológicas dos últimos anos. Eu sinto falta de uma discussão mais profunda sobre reformas estruturantes”, afirmou.
Entre as mudanças defendidas por Riedel está uma reforma política que reduza o número de partidos existentes no país.
Na avaliação do governador, a fragmentação partidária dificulta a construção de projetos políticos mais claros.
“Não faz sentido imaginar que existam mais de trinta projetos ideológicos diferentes convivendo ao mesmo tempo”, disse.
Riedel também defende o fim da reeleição para cargos do Executivo, a adoção de mandatos únicos de cinco anos e a realização conjunta das eleições municipais e nacionais.
Para ele, o atual calendário eleitoral mantém o país em uma espécie de campanha permanente, já que as eleições ocorrem a cada dois anos.
“A cada dois anos, o país interrompe suas agendas para discutir eleições. Não considero isso saudável para a sociedade nem para a administração pública”, afirmou.
Produtor rural antes de ingressar na política, Riedel também defendeu um ambiente econômico com mais estabilidade, previsibilidade e confiança para estimular os investimentos privados.
Ao falar sobre o agronegócio, o governador ampliou a discussão para toda a economia e afirmou que empresários precisam ter segurança para tomar decisões de longo prazo.
Riedel reconheceu como positivo o avanço de concessões e parcerias com a iniciativa privada durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, inclusive em projetos relacionados a Mato Grosso do Sul. Ao mesmo tempo, apontou uma contradição entre essas iniciativas e setores políticos tradicionalmente contrários às privatizações.
Para o governador, a prioridade deve ser criar condições favoráveis para os investimentos privados, independentemente do setor.
Na avaliação dele, o mesmo pragmatismo deveria orientar as negociações comerciais do Brasil com os Estados Unidos. Riedel criticou o que classificou como excesso de discursos e falta de objetividade na condução do chamado tarifaço.
“Bravatas funcionam em palanque, mas não resolvem problemas comerciais”, afirmou.
Segundo Riedel, o país deveria recuperar uma tradição diplomática baseada na negociação e estabelecer uma estratégia comercial de longo prazo.
A segurança pública também foi um dos principais temas abordados pelo governador. À frente de um estado com mais de 1,5 mil quilômetros de fronteira internacional, Riedel afirmou que o combate ao tráfico de drogas e às organizações criminosas depende de investimento, inteligência e integração entre as forças de segurança.
O governador destacou a atuação conjunta do Departamento de Operações de Fronteira (DOF), da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal em apreensões realizadas em Mato Grosso do Sul.
Para Riedel, entretanto, a localização geográfica do Estado faz com que os efeitos do tráfico internacional ultrapassem os limites da administração estadual.
Segundo dados mencionados por ele na entrevista, Mato Grosso do Sul possui uma taxa de encarceramento de 700 presos para cada 100 mil habitantes. O governador relacionou parte da pressão sobre o sistema prisional às prisões ligadas ao tráfico internacional.
Na avaliação dele, o cenário mostra que o enfrentamento às facções criminosas não pode ser tratado apenas como uma questão estadual.
“Isso demonstra que o combate às facções deixou de ser um problema regional. É um problema nacional e internacional”, afirmou.
Riedel também alertou para o avanço das organizações criminosas, que, segundo ele, ampliaram sua capacidade financeira e internacionalizaram suas operações.
“Quando uma organização criminosa substitui o Estado em determinado território, ela passa a impor regras próprias, controlar comunidades e interferir diretamente na vida das pessoas. Isso é extremamente grave”, declarou.
Dentro do debate sobre segurança, Riedel também se posicionou favoravelmente à discussão sobre a redução da maioridade penal. Para ele, a sociedade deve avaliar mudanças nos limites de idade relacionados a direitos e responsabilidades.
O governador, porém, ressaltou que uma alteração na legislação, sozinha, não seria suficiente para solucionar a violência envolvendo adolescentes e jovens.
Riedel defendeu uma combinação entre responsabilização, educação, qualificação profissional, oportunidades de emprego e políticas públicas capazes de impedir que jovens retornem às condições sociais que favoreceram a aproximação com o crime.
“Se o Estado não ocupar esse espaço, alguém vai ocupar. E, muitas vezes, quem ocupa é o crime organizado”, afirmou.
Para os próximos anos, Riedel coloca a transformação econômica e logística de Mato Grosso do Sul entre as prioridades. A estratégia, segundo ele, é consolidar o Estado como polo logístico, industrial e de serviços, aproveitando a diversificação da economia e a atração de investimentos privados.
Nesse cenário, a Rota Bioceânica é considerada estratégica. O corredor rodoviário, previsto para conectar o Brasil ao Oceano Pacífico, é apontado pelo governador como uma oportunidade para reduzir custos logísticos, aproximar a produção brasileira dos mercados asiáticos e ampliar a importância de Mato Grosso do Sul nas cadeias de importação e exportação.
Riedel destacou a localização do Estado, que faz fronteira com Paraguai e Bolívia e possui ligação com diferentes regiões brasileiras, como uma vantagem para transformar Mato Grosso do Sul em uma plataforma de distribuição.
Para o governador, porém, o crescimento econômico precisa estar acompanhado de responsabilidade fiscal e políticas sociais.
Ao falar sobre o legado que pretende deixar, Riedel afirmou que gostaria de ver Mato Grosso do Sul reconhecido pelo crescimento aliado à responsabilidade nas contas públicas, inclusão social e investimentos em educação.
“Gostaria que fôssemos reconhecidos como um estado que cresceu sem abrir mão da responsabilidade fiscal, da inclusão social e da educação”, afirmou.