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Campo Grande - quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Casas Bahia pede recuperação judicial com dívida de R$ 17,3 bilhões após anos de crise

Varejista acumula prejuízos desde 2022, fechou mais de 200 lojas e já havia renegociado R$ 4,1 bilhões

Michelly Perez - 18/08/2026 • 10:39

Foto:  Divulgação | Via Varejo

A crise que há anos aperta o caixa das Casas Bahia ganhou um novo e bilionário capítulo. O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo para tentar reorganizar uma dívida estimada em R$ 17,3 bilhões.

O pedido, apresentado no domingo (16), ocorre depois de uma sequência de prejuízos, fechamento de lojas, cortes de custos e uma recuperação extrajudicial que havia renegociado cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas em 2024.

Agora, a empresa volta à Justiça em busca de fôlego para continuar operando, renegociar compromissos e reorganizar a estrutura financeira.

A companhia atribui a piora do cenário principalmente à combinação de juros elevados, crédito mais caro e restrito e enfraquecimento do consumo, fatores que pressionam diretamente o varejo e dificultam a geração de caixa.

Uma crise que começou em 2022

Os primeiros sinais mais evidentes da crise apareceram no terceiro trimestre de 2022, quando a empresa registrou o primeiro de uma sequência de prejuízos trimestrais.

Naquele momento, o varejo brasileiro ainda sentia os efeitos da pandemia, enquanto os juros já estavam em trajetória de alta. Para uma empresa que depende fortemente de crédito e financiamento das compras, o cenário se tornou especialmente difícil.

As Casas Bahia começaram a fechar lojas com desempenho abaixo do esperado e passaram a buscar formas de aumentar a rentabilidade e reduzir a necessidade de dinheiro para manter a operação.

Em 2023, a empresa anunciou o chamado Plano de Transformação, com foco em geração de caixa, redução de custos e maior rentabilidade. A estratégia previa mudanças na operação, incluindo fechamento de lojas, redução de postos de trabalho e uma aposta maior na eficiência dos canais digitais.

A tentativa, porém, não foi suficiente para resolver o problema financeiro.

Primeira tentativa de salvar as contas

Em abril de 2024, o grupo anunciou uma recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas.

A medida permitiu alongar compromissos com credores e ganhar tempo para colocar em prática o processo de reestruturação. A recuperação extrajudicial, diferente da judicial, ocorre inicialmente por meio de negociação direta entre a empresa e seus principais credores, posteriormente submetida à Justiça.

O grupo conseguiu avançar em parte da reorganização financeira e, em 2025, informou uma redução de 75% na dívida líquida como parte da transformação de sua estrutura de capital.

Mas o alívio não durou.

Prejuízo de R$ 10,1 bilhões

No primeiro semestre de 2026, a situação voltou a se deteriorar.

Embora a companhia tenha informado uma redução de R$ 2,7 bilhões na dívida líquida no primeiro trimestre, a pressão sobre o caixa aumentou e novas alternativas precisaram ser buscadas.

No segundo trimestre, o grupo registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões.

A empresa também informou o fechamento de mais de 200 lojas em uma nova etapa do plano de transformação iniciado em 2023. A estratégia inclui redução de estoques, cortes de despesas, mudanças nos canais digitais e diminuição da necessidade de capital para manter as operações.

Segundo a companhia, também houve tentativa de captar recursos no Brasil e no exterior para reforçar o caixa. Parte das negociações, no entanto, não avançou.

A dificuldade para obter novos financiamentos, a desistência de um investidor e o cenário de juros elevados contribuíram para que a recuperação judicial se tornasse o próximo passo da reestruturação.

O que é recuperação judicial?

A recuperação judicial é um mecanismo utilizado por empresas que enfrentam dificuldades financeiras para tentar evitar a falência e continuar funcionando.

Na prática, a empresa apresenta à Justiça um plano para reorganizar suas dívidas e negociar com os credores. Durante o processo, são discutidas condições para pagamento dos débitos, enquanto a companhia busca manter suas atividades.

No caso das Casas Bahia, o objetivo é reorganizar os aproximadamente R$ 17,3 bilhões em obrigações e criar condições para que a operação continue funcionando.

A recuperação judicial não significa, portanto, que as lojas serão fechadas imediatamente ou que a empresa deixará de existir. O objetivo é justamente criar uma estrutura para que o negócio consiga superar a crise financeira.

Quem está por trás das Casas Bahia?

Apesar de levar o nome de uma das marcas mais conhecidas do varejo brasileiro, o Grupo Casas Bahia é maior do que a rede de lojas.

A companhia controla marcas como Casas Bahia, Ponto, Extra.com.br e Bartira, fabricante de móveis. Também possui operações ligadas a logística, tecnologia e serviços financeiros, como o Casas Bahia Pay.

A estrutura atual começou a ser formada em 2009, quando a Casas Bahia foi incorporada à Globex, empresa que controlava o Ponto, antigo Pontofrio.

A companhia passou a se chamar Via Varejo em 2010. Em 2021, adotou o nome Via e, em 2023, passou a se chamar oficialmente Grupo Casas Bahia.

Nos últimos anos, a empresa também ampliou sua atuação no comércio eletrônico e investiu em logística, tecnologia, meios de pagamento e serviços financeiros.

O desafio daqui para frente

O pedido de recuperação judicial chega depois de uma série de tentativas de enxugar a operação e recuperar a saúde financeira da companhia.

A empresa já fechou lojas, reduziu custos, renegociou bilhões em dívidas, cortou estoques e mudou sua estratégia digital. Ainda assim, a combinação entre despesas financeiras elevadas, dificuldade de acesso a crédito e consumo mais fraco voltou a pressionar as contas.

Agora, o desafio será transformar a recuperação judicial em uma nova oportunidade de reorganização.

Para uma das marcas mais tradicionais do varejo brasileiro, a próxima fase será marcada por uma pergunta simples, mas de enorme peso financeiro: como voltar a vender, gerar caixa e crescer depois de acumular uma dívida de R$ 17,3 bilhões?

É essa resposta que determinará o próximo capítulo da história das Casas Bahia. (com informações G1)

Tags: Casas Bahia, economia, Recuperação judicial,