Campo Grande - segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Especialistas alertam para prejuízos na cognição, nos relacionamentos e no desempenho escolar provocados pelo uso excessivo das telas
Michelly Perez - 27/08/2026 • 11:30
Foto: divulgação
Crianças e adolescentes brasileiros estão cada vez mais conectados. Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 mostram que 71% dos brasileiros de 9 a 17 anos usam redes sociais, sinalizando a presença cada vez maior das plataformas digitais na rotina dessa faixa etária.
O avanço do acesso, porém, vem acompanhado de preocupações sobre os efeitos desse hábito. Um estudo realizado no norte da Itália identificou impactos negativos do uso de redes sociais no desempenho acadêmico de estudantes. A pesquisa reforça um alerta que já mobiliza especialistas: quanto mais cedo começa a exposição e quanto maior o tempo dedicado às plataformas, maiores podem ser os prejuízos.
Entre os efeitos apontados está o comprometimento da cognição e da qualidade das relações sociais. Para Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em políticas educacionais, a convivência presencial tem papel fundamental no desenvolvimento.
“A sociabilização é um elemento central para o processo de cognição”, afirma. Segundo ele, as redes sociais podem dificultar a construção de vínculos mais profundos. O problema, entretanto, não está apenas na quantidade de relações estabelecidas, mas na qualidade delas.
Outro ponto de preocupação é a forma como as redes sociais são desenvolvidas. Os aplicativos utilizam mecanismos para manter o usuário conectado pelo maior tempo possível, o que pode ser especialmente prejudicial para crianças e adolescentes, ainda em fase de desenvolvimento.
“É extremamente efetivo, tornando os jovens dependentes das plataformas e criando a ilusão de que a vida está totalmente vinculada às redes sociais, o que diminui as interações [na vida real]”, explica Cara.
A discussão sobre os efeitos desse modelo também chegou à Justiça. Nos Estados Unidos, a Meta, empresa responsável por Facebook, Instagram e WhatsApp, foi alvo de ações movidas por estados americanos que questionaram os impactos das plataformas sobre crianças e adolescentes. O caso resultou em um acordo financeiro, embora os valores não tenham sido divulgados oficialmente.
O estudo realizado na Itália também apontou que a idade de início do uso das redes pode influenciar os impactos sobre os estudantes. A constatação aumenta a preocupação com a exposição de crianças pequenas às telas.
Para Cara, os efeitos na primeira infância merecem atenção especial. Embora existam estudos sobre crianças maiores e adolescentes que já apontam relações negativas entre o uso intenso das redes e diferentes aspectos do desenvolvimento, ainda há menos pesquisas sobre os efeitos específicos na primeira infância.
“Certamente o prejuízo é mais danoso e há pouca pesquisa nesse sentido”, alerta o professor.
No Brasil, o acesso às redes sociais já é significativo entre os adolescentes. Segundo os dados citados, 63% das crianças de 11 e 12 anos e 89% dos jovens de 13 e 14 anos utilizam essas plataformas.
Diante desse cenário, o país começou a adotar medidas para limitar a exposição. Desde janeiro de 2025, o uso de celulares nas escolas brasileiras está proibido durante atividades escolares, com exceções previstas na legislação.
As discussões internacionais, no entanto, avançam para além do ambiente escolar. A Austrália adotou uma das medidas mais rígidas ao restringir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais. Desde o fim de 2025, as plataformas passaram a ter a responsabilidade de impedir que usuários abaixo dessa idade criem contas.
O modelo australiano também influencia o debate no Reino Unido, onde uma medida semelhante é estudada para os próximos anos.
Enquanto governos discutem novas formas de regulamentar as plataformas, especialistas defendem que as famílias também estabeleçam limites para o uso da tecnologia.
Para Cara, os pais devem conversar com crianças e adolescentes sobre o assunto e explicar a importância das regras. “A criança busca cotidiano, estrutura e regra”, afirma.
A orientação é estabelecer limites claros sobre quando, onde e como as telas podem ser utilizadas, sempre buscando o entendimento dos filhos. A ideia não é apenas retirar o acesso aos dispositivos, mas criar uma rotina que preserve momentos de convivência, estudo, descanso e interação fora do ambiente digital.
O desafio, portanto, vai além de controlar o tempo diante da tela. Em uma geração que já nasceu conectada, a preocupação passa a ser encontrar o equilíbrio entre os benefícios da tecnologia e a preservação das relações, da aprendizagem e do desenvolvimento saudável. (com informações USP)