Campo Grande - quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Audiência na Câmara expôs queda de 39,64% nos investimentos, enquanto despesas com servidores chegam a 53,89% da receita; vereadores cobraram explicações
Michelly Perez - 01/10/2026 • 11:47
Foto: Izaias Medeiros
A Prefeitura de Campo Grande arrecadou mais em 2026, mas reduziu significativamente o volume de recursos destinados a investimentos e ainda mantém as despesas com pessoal acima do limite prudencial estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Os números foram apresentados nesta quarta-feira (30), durante audiência pública na Câmara Municipal, e provocaram uma série de cobranças dos vereadores sobre a condução das contas do Município.
Entre janeiro e agosto deste ano, os investimentos somaram R$ 87,6 milhões, contra R$ 145,2 milhões no mesmo período de 2025. A redução foi de 39,64%. O resultado chamou atenção porque ocorreu mesmo diante do crescimento da arrecadação.
Durante a audiência, o vereador Maicon Nogueira destacou o contraste entre o aumento das receitas e a queda nos investimentos. Segundo ele, para cada R$ 100 arrecadados no ano passado, o Município passou a arrecadar R$ 107,50 neste ano. Já em relação aos investimentos, para cada R$ 100 aplicados anteriormente, foram destinados cerca de R$ 60 neste ano.
“Está entrando mais dinheiro, mas estão investindo menos. Por que, diante do aumento da arrecadação, estamos investindo menos?”, questionou.
O cenário também foi alvo de cobrança em relação às despesas com pessoal. O comprometimento da receita chegou a 53,89%, acima do limite prudencial de 51,3% previsto na LRF. O vereador Otávio Trad questionou por que a Reforma Administrativa aprovada pelo Município ainda não resultou em uma redução mais expressiva da despesa.
“A Reforma Administrativa foi aprovada e, se formos analisar todas as audiências que fizemos, não conseguimos ver, de fato, numericamente, uma melhora na saúde da despesa com pessoal”, afirmou.
O secretário municipal de Fazenda, Isaac José de Araújo, atribuiu o percentual elevado principalmente aos gastos das áreas de saúde e educação. Segundo ele, houve redução em relação ao balanço anterior, quando o comprometimento estava em 55,85%, mas reajustes e reposições salariais continuam pressionando a folha.
“Teve aumento dos servidores, a reposição, estamos nos esforçando. A própria educação vem com um aumento estabelecido pelo governo federal, isso vai gerando impacto”, explicou.
A justificativa, porém, não encerrou as cobranças sobre a capacidade de investimento da Prefeitura. O vereador Ronilço Guerreiro relacionou a redução dos investimentos aos problemas enfrentados diariamente pela população, como a situação das ruas e a estrutura das unidades de saúde.
“Em relação aos investimentos, as pessoas não aguentam cair em tantos buracos, ir no posto de saúde e não ter ar-condicionado”, afirmou.
O secretário explicou que parte dos investimentos previstos ainda não apareceu nos números do período porque licitações e contratos tiveram problemas de execução. Citou, entre outros casos, obras de pavimentação e serviços de tapa-buraco, cujos pagamentos devem ocorrer posteriormente. Também mencionou o pagamento de dívidas de gestões anteriores relacionadas a investimentos realizados em anos passados.
Apesar da queda nos investimentos, algumas das principais receitas do Município apresentaram crescimento. Considerando apenas os recursos do Tesouro, a arrecadação com IPTU aumentou 5,80%, passando de R$ 487,7 milhões para R$ 516 milhões na comparação entre os dois primeiros quadrimestres de 2025 e 2026. Considerando todas as fontes, a alta chega a 10,43%.
O ISS também cresceu 8%, alcançando R$ 504,8 milhões até agosto. Já a cota-parte do ICMS teve aumento de 1,22%.
Os dados reforçaram os questionamentos dos vereadores sobre a destinação dos recursos e a capacidade do Município de transformar o aumento da arrecadação em obras e serviços perceptíveis para a população.
As discussões avançaram ainda para a previsão orçamentária de 2027. A proposta da Lei Orçamentária Anual (LOA) estima receita e fixa despesas em aproximadamente R$ 7,7 bilhões.
O IPTU voltou ao centro do debate. Otávio Trad cobrou antecipadamente informações sobre o reajuste para evitar uma nova polêmica na emissão dos carnês.
“Agora é a hora, temos tempo para discutir sobre o reajuste do ano de 2027 para não sermos pegos de surpresa novamente”, afirmou.
Segundo Isaac Araújo, a correção do imposto deverá ocorrer apenas pela inflação, com exceção dos imóveis que tenham passado por melhorias. O secretário também informou que a inadimplência do IPTU está entre 30% e 40% e vem sendo combatida por meio do Refis.
A Taxa do Lixo também foi questionada, principalmente diante da projeção de aumento de 26,93% para 2027. O secretário afirmou que será mantido o mesmo critério utilizado neste ano, com correção pela inflação.
Na discussão da LOA, os vereadores também cobraram informações sobre recursos para cultura, meio ambiente, zeladoria, aplicação das emendas parlamentares e a previsão de crescimento de 47% nos investimentos para o próximo ano.
A audiência expôs, assim, um dos principais desafios do orçamento municipal: transformar o crescimento das receitas em maior capacidade de investimento, sem ampliar a pressão sobre a folha de pessoal e sem transferir ao contribuinte novas incertezas sobre impostos e taxas.
Tags: Câmara de Vereadores, Capital, gestão,