Campo Grande - quinta-feira, 8 de outubro de 2026
Encontro reúne mulheres Kadiwéu, Macuxi e Wai Wai; programação termina com bazar de artesanato no feriado em Bodoquena
Michelly Perez - 08/10/2026 • 06:57
Foto: Alicce Rodrigues
O barro que nasce da terra, os pigmentos naturais e os conhecimentos transmitidos de geração em geração vão reunir ceramistas indígenas de diferentes regiões do país em Mato Grosso do Sul. Entre os dias 10 e 12 de outubro, a Aldeia Alves de Barros, na Terra Indígena Kadiwéu, em Porto Murtinho, será palco do 2º Encontro Ancestral de Cerâmica Indígena.

A programação promove um intercâmbio entre artistas Kadiwéu, Macuxi e Wai Wai, com atividades voltadas à troca de técnicas, valorização da produção tradicional e também à geração de renda. O encontro é realizado pelo projeto Vidas e Vozes Kadiwéu, do Instituto Terra Brasilis, em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
A programação começa no sábado (10), com uma formação sobre precificação e estratégias de vendas, das 10h às 16h. A proposta é ajudar as artesãs a definir valores para as peças e ampliar as possibilidades de comercialização da produção indígena.
No domingo (11), o foco será a própria produção cerâmica. As participantes vão compartilhar técnicas, processos de fabricação e formas de valorizar o trabalho artesanal.
Entre as Kadiwéu, a produção das peças começa na coleta do barro e de pigmentos naturais encontrados em nascentes, pedras e riachos do território. O acabamento também carrega um conhecimento ancestral, com o uso da resina do pau-santo, árvore conhecida na língua Kadiwéu como Elegigo.

A resina é utilizada em detalhes que dão às peças o característico acabamento preto e brilhante da cerâmica Kadiwéu. O pau-santo, de nome científico Gonopterodendron sarmientoi, é uma espécie ameaçada de extinção.
A cerâmica também faz parte da tradição das mulheres Macuxi. Na comunidade Raposa I, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, o conhecimento é transmitido entre mulheres de diferentes gerações.
Para Creuza Vergilio, presidente da Associação das Mulheres Artistas Kadiwéu (AMAK) e participante das duas edições do encontro, a cerâmica representa mais do que uma atividade econômica: é parte de sua própria história e identidade.
A continuidade da produção, porém, depende da preservação dos territórios onde são encontrados o barro, as plantas e outros materiais utilizados pelas artesãs.
A relação entre a cerâmica e o território ganha ainda mais importância diante das mudanças climáticas. Incêndios, períodos prolongados de seca e ondas de calor ameaçam os ambientes dos quais as comunidades indígenas retiram os materiais necessários para manter a produção tradicional.

O encontro busca justamente fortalecer a autonomia das artesãs, o protagonismo feminino e a geração de renda, além de abrir espaço para discutir as condições necessárias para que os conhecimentos continuem sendo ensinados às novas gerações.
A primeira edição do Encontro Ancestral de Cerâmica Indígena ocorreu em 2022, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, reunindo artistas Macuxi, Kadiwéu e Terena. Agora, o intercâmbio acontece no território Kadiwéu.
“Dar continuidade ao encontro iniciado pelas comunidades de Roraima (…) é reconhecer o trabalho de quem criou essa aproximação. Agora, no território Kadiwéu, as artistas terão outra oportunidade de compartilhar seus conhecimentos e conversar sobre as condições de que precisam para seguir produzindo, ensinando e comercializando sua arte”, afirma Reinaldo Lourival, diretor executivo do Instituto Terra Brasilis.
A programação termina na segunda-feira (12), feriado de Nossa Senhora Aparecida, com o Bazar da Associação das Mulheres Artistas Kadiwéu (AMAK), em Bodoquena.

Das 9h às 17h, o público poderá encontrar cerâmicas, cestarias, roupas e biojoias produzidas pelas artesãs Kadiwéu. O bazar será realizado na sede da Associação das Comunidades Indígenas da Reserva Kadiwéu (ACIRK), na Rua Guilherme Maidama, 128.
Além de aproximar o público da produção indígena, o evento representa uma oportunidade para as artesãs comercializarem diretamente seus produtos e fortalecerem a geração de renda dentro das comunidades.
Durante o encontro, também serão produzidos registros em foto e vídeo para um projeto de realidade virtual em 360 graus, que pretende mostrar etapas como a coleta do barro, a produção, a queima, a pintura, o intercâmbio entre as artistas e a comercialização das peças.
2º Encontro Ancestral de Cerâmica Indígena
10 de outubro: treinamento sobre precificação e estratégias de vendas, das 10h às 16h, na Aldeia Alves de Barros, Terra Indígena Kadiwéu, em Porto Murtinho.
11 de outubro: encontro dedicado às técnicas e processos de produção da cerâmica, das 10h às 16h, na Aldeia Alves de Barros.
12 de outubro: Bazar da AMAK, das 9h às 17h, na sede da ACIRK, Rua Guilherme Maidama, 128, em Bodoquena. Haverá venda de cerâmicas, cestarias, roupas e biojoias Kadiwéu.
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