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Campo Grande - domingo, 9 de agosto de 2026

Alunos da UFMS investigam potencial de frutos de MS e transformam casca de bocaiúva em cosmético

Pesquisa mostra como a ciência pode transformar a biodiversidade regional em inovação, renda e oportunidades

Michelly Perez - 07/08/2026 • 08:13

Foto: UFMS

O que para muitos ainda é apenas a casca descartada de um fruto típico de Mato Grosso do Sul, para pesquisadores e estudantes da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) se tornou matéria-prima para inovação. A pesquisa desenvolvida no Laboratório de Purificação de Proteínas e suas Funções Biológicas investiga o potencial da bocaiúva e transformou o resíduo do fruto em uma formulação cosmética com extrato antioxidante e partículas esfoliantes naturais.

O projeto Acrodermo conquistou o 1º lugar no Desafio de Inovação Pantanal Tech 2026, reconhecimento que colocou em evidência não apenas o produto desenvolvido, mas também o trabalho de pesquisa realizado dentro da universidade para descobrir novas possibilidades a partir de espécies que fazem parte da biodiversidade regional.

A iniciativa é conduzida pela professora Maria Lígia Rodrigues Macedo, pelo farmacêutico e pesquisador Lucas Rannier Melo de Andrade e pelo biólogo e doutorando Antolim Penha Martinez Junior. O trabalho mostra como a pesquisa acadêmica pode partir de uma pergunta simples — e transformar a resposta em tecnologia.

A bocaiúva (Acrocomia aculeata) já é conhecida por seu uso na alimentação e por fazer parte da identidade de Mato Grosso do Sul. Durante anos, porém, a atenção científica e comercial esteve concentrada principalmente na polpa e na amêndoa. A casca, que normalmente sobra após o processamento, permaneceu pouco explorada.

Foi justamente nesse material que os pesquisadores decidiram olhar com mais atenção.

A equipe descobriu que a casca pode ser aproveitada em duas etapas. Primeiro, dela é extraído um composto com atividade antioxidante. Depois, o material sólido que sobra do processo pode ser transformado em partículas esfoliantes naturais.

“É quase um duplo aproveitamento da mesma matéria-prima”, explica a professora Maria Lígia, segundo a UFMS.

Um novo olhar para os frutos de MS

Mais do que desenvolver um cosmético, o trabalho representa uma mudança de olhar sobre aquilo que a biodiversidade regional oferece.

Frutos presentes no cotidiano das comunidades, na alimentação e na paisagem de Mato Grosso do Sul podem esconder propriedades e possibilidades que ainda não foram completamente exploradas. E é justamente esse potencial que pesquisadores e estudantes da UFMS vêm investigando.

No caso da bocaiúva, a pesquisa mostra que até mesmo uma parte considerada resíduo pode ganhar valor tecnológico. Os testes realizados em laboratório indicaram boa atividade antioxidante do extrato, além de potencial anti-inflamatório e segurança nas concentrações avaliadas em modelos celulares.

O trabalho também aproxima a universidade de pequenos produtores e cooperativas que atuam com a bocaiúva. Se a casca, antes sem destino comercial, passa a ter valor, toda a cadeia produtiva pode ser beneficiada.

“Se a casca passa a ter valor tecnológico, produtores, extrativistas, cooperativas e pequenas empresas ganham uma frente a mais de fornecimento ou beneficiamento”, afirma Maria Lígia.

A pesquisa, portanto, não fica restrita à bancada. Ela abre a possibilidade de gerar novos produtos, estimular negócios e criar uma fonte adicional de renda para quem trabalha com o fruto.

Ciência feita por quem olha para o que é nosso

O reconhecimento no Pantanal Tech também reforça a importância do trabalho desenvolvido dentro da universidade. Além do Acrodermo, outros quatro projetos da UFMS ficaram entre os seis primeiros colocados na competição. Para a instituição, o resultado demonstra a qualidade dos pesquisadores e estudantes e o fortalecimento do ambiente de inovação.

Para Antolim, o prêmio mostra que uma pesquisa iniciada dentro do laboratório pode chegar muito mais longe.

A experiência também fez os pesquisadores ampliarem o olhar sobre o próprio trabalho, considerando questões como mercado, custos, escala de produção, regulamentação e possibilidades de parceria com empresas.

De olho no futuro

O projeto ainda está em fase de validação laboratorial e desenvolvimento dos protótipos. Os pesquisadores trabalham agora no aprimoramento da formulação e em estudos de estabilidade, segurança e eficácia, antes de avançar para uma possível produção em escala.

A história da bocaiúva mostra, assim, que conhecer melhor os frutos e as espécies que fazem parte de Mato Grosso do Sul também pode ser uma forma de descobrir novas riquezas do Estado.

Quando estudantes e pesquisadores passam a investigar aquilo que cresce no Cerrado e no Pantanal, a biodiversidade deixa de ser apenas paisagem ou tradição e passa a ser também fonte de conhecimento, tecnologia e desenvolvimento.

É esse o papel da ciência produzida na UFMS: olhar para o que já existe no território, fazer perguntas sobre aquilo que ainda é pouco conhecido e encontrar maneiras de transformar conhecimento em soluções para a própria região.

Tags: Bocaiúva, Pesquisam, UFMS,