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Campo Grande - quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Aos 95 anos, Irmã Silvia celebra uma vida que devolveu dignidade a quem o mundo preferiu não enxergar

Religiosa italiana chegou a MS em 1959 e transformou o antigo leprosário em um dos maiores símbolos de acolhimento, saúde e esperança do Estado

Michelly Perez - 19/08/2026 • 09:15

Foto: divulgação São Julião

Há pessoas que passam pela vida. E há aquelas que deixam a vida diferente depois que passam por ela. Nesta quarta-feira (19), Irmã Silvia Vecellio completa 95 anos. São quase dez décadas de uma história que começou nas montanhas do norte da Itália e encontrou em Mato Grosso do Sul um propósito que mudaria para sempre a vida de milhares de pessoas.

Presidente de Honra do Hospital São Julião, a religiosa italiana dedicou grande parte da própria existência a quem, durante décadas, foi colocado à margem da sociedade. Em uma época em que a hanseníase ainda era cercada pelo medo, pela desinformação e pelo preconceito, ela fez uma escolha simples, mas transformadora: olhar para quem quase ninguém queria olhar.

E foi justamente quando decidiu enxergar essas pessoas que começou a mudar uma história.

Das montanhas da Itália para MS

Nascida em 19 de agosto de 1931, em Auronzo di Cadore, no norte da Itália, Silvia Vecellio cresceu cercada pelas montanhas. Na juventude, foi alpinista e aprendeu, ainda cedo, a lidar com desafios e a seguir adiante mesmo diante de caminhos difíceis.

Mais tarde, encontrou na vida religiosa a forma de transformar seu desejo de ajudar o próximo em missão. Ingressou no Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, em Turim, e tinha o sonho de trabalhar com populações indígenas no então Mato Grosso.

Em setembro de 1959, chegou ao Brasil. Foi professora no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, em Campo Grande, mas logo percebeu que sua missão não caberia apenas dentro de uma sala de aula.

Para Irmã Silvia, educar também significava despertar o olhar para o mundo. Levou o cinema para as aulas, provocou as alunas a discutirem questões filosóficas e sociais e, aos domingos, passou a percorrer comunidades periféricas da Capital. Foi em uma dessas experiências que sua vida tomaria outro rumo.

As cartas que revelaram uma realidade escondida

Em 1964, durante uma visita ao Educandário Getúlio Vargas, Irmã Silvia conheceu crianças que carregavam cartas e fotografias destinadas aos pais. Os pais estavam internados no Asilo Colônia São Julião.

A instituição ficava em uma área isolada de Campo Grande e abrigava pessoas com hanseníase. Naquele período, a doença ainda era tratada com medo e preconceito. Muitos dos pacientes haviam sido afastados das próprias famílias e da convivência social.

Quando Irmã Silvia entrou naquele espaço, encontrou uma realidade marcada pelo abandono. Havia falta de assistência médica adequada, medicamentos, alimentação e condições básicas para uma vida digna.

Mas ela também encontrou pessoas.

Pessoas com histórias, famílias, sonhos e necessidades que iam muito além de um diagnóstico.Enquanto muitos enxergavam a doença, Irmã Silvia escolheu enxergar o ser humano. E não foi embora.

Uma transformação que começou com uma decisão

A partir daquele momento, a religiosa passou a se dedicar à transformação do antigo asilo.

Em 1969, depois de buscar apoio na Itália, trouxe para Campo Grande voluntários da Operação Mato Grosso. Ao lado de religiosos, profissionais, empresários e colaboradores brasileiros e italianos, iniciou uma grande mobilização para reconstruir aquele espaço.

O trabalho envolveu muito mais do que paredes e estruturas. Era preciso reconstruir a própria ideia de que aquelas pessoas mereciam cuidado, respeito e oportunidades. Em 1970, nasceu a Associação de Auxílio e Recuperação de Hansenianos. Vieram melhorias na estrutura física, saneamento, alimentação, tratamento médico, escola, laborterapia e ações voltadas à reinserção social.

Aos poucos, o lugar que antes simbolizava isolamento começou a ganhar outro significado. O São Julião passou a ser sinônimo de acolhimento.

Do isolamento à esperança

A transformação não parou na hanseníase. Com o passar dos anos, o Hospital São Julião ampliou sua atuação e se tornou referência em diferentes áreas da saúde e da assistência. Vieram centro cirúrgico, atendimento à população, escola, centro oftalmológico, estruturas de reabilitação e projetos ligados à educação, cultura e inclusão.

O que começou com o esforço de uma religiosa para melhorar as condições de pessoas esquecidas tornou-se uma instituição que atravessa gerações.

Para o presidente do Hospital São Julião, Carlos Melke, o maior legado deixado por Irmã Silvia não pode ser medido apenas pelas obras ou estruturas que ajudou a construir. Está, sobretudo, na maneira de olhar para o outro.

“Conviver com a Irmã Silvia é aprender todos os dias que cuidar do ser humano vai muito além de tratar uma doença. Ela nos ensina, pelo exemplo, que cada pessoa precisa ser enxergada com amor, respeito e carinho, independentemente da sua condição ou daquilo que a sociedade possa pensar sobre ela”, afirma.

Segundo Melke, a dedicação da religiosa permanece presente no cotidiano da instituição.

“O São Julião carrega esse ensinamento todos os dias: ninguém deve ser privado de dignidade, esperança e oportunidade de recomeçar”, completa.

Uma vida que permanece

Aos 95 anos, Irmã Silvia continua sendo uma referência viva na história do Hospital São Julião. Sua trajetória se mistura à transformação da instituição e também à mudança na forma como Mato Grosso do Sul passou a enxergar pessoas que, por muito tempo, foram tratadas como invisíveis.

Sua história começou muito longe daqui, entre as montanhas da Itália. Mas foi em Mato Grosso do Sul que ela encontrou pessoas que se tornariam parte inseparável de sua vida. E talvez seja justamente aí que esteja a maior dimensão de seu legado: Irmã Silvia não apenas ajudou a construir um hospital. Ajudou a reconstruir vidas.

Neste 19 de agosto, o São Julião não celebra apenas os 95 anos de uma religiosa. Celebra uma mulher que escolheu ficar quando poderia ter ido embora. Que escolheu cuidar quando tantos preferiam esquecer. Que ensinou, por meio da própria vida, que antes de qualquer doença existe uma pessoa — e que nenhuma pessoa deve ser privada de dignidade.

Aos 95 anos, Irmã Silvia celebra uma vida inteira dedicada ao outro. E Mato Grosso do Sul celebra a mulher que ajudou a transformar cuidado em esperança. (com assessoria)

Tags: Comunidade, Hospital São Julião, Irmã Silvia,