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Campo Grande - segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Após caso de Lito Sousa viralizar, Humap alerta para sinais de doença rara que evolui rapidamente

Doença de Creutzfeldt-Jakob ganhou atenção nas redes sociais; neurologista explica sintomas, diagnóstico, transmissão e cuidados

Michelly Perez - 31/08/2026 • 10:21

Foto: Reprodução/YouTube

O caso de Lito Sousa, que ganhou grande repercussão nas redes sociais, colocou no centro das discussões uma doença pouco conhecida: a Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). Diante do aumento do interesse pelo tema, o Humap-UFMS (Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian) chama atenção para os sinais da enfermidade, considerada rara e marcada pela rápida progressão do comprometimento neurológico.

A DCJ é uma doença neurodegenerativa associada a alterações anormais de proteínas chamadas príons. Embora seja rara, a velocidade com que o quadro pode evoluir é um dos principais aspectos que diferenciam a enfermidade de outras doenças neurodegenerativas.

Segundo o neurologista do Humap-UFMS, Dr. Pedro Levi, os primeiros sintomas podem ser pouco específicos e facilmente confundidos com outras condições.

“É uma doença que pode começar de maneira bastante inespecífica. Por isso, diante de uma deterioração cognitiva e motora que acontece de forma muito rápida, é importante considerar também causas menos comuns, entre elas a Doença de Creutzfeldt-Jakob”, explica.

Entre os sinais iniciais podem aparecer alterações de comportamento, como apatia, depressão, irritabilidade ou impulsividade, além de lapsos de memória, dificuldade para realizar atividades cotidianas, tontura e problemas de equilíbrio.

Com a progressão da doença, podem surgir manifestações neurológicas mais características, como as mioclonias, contrações musculares súbitas e involuntárias que podem ser desencadeadas por sons, luz ou toque.

Doença pode evoluir em semanas ou meses

Uma das principais características da DCJ é a velocidade de evolução. Enquanto algumas doenças neurodegenerativas podem levar anos para provocar perdas importantes de funções, a DCJ pode causar deterioração significativa das capacidades cognitivas e motoras em questão de semanas ou meses.

Na forma esporádica, que corresponde à maioria dos casos, a sobrevida média é de aproximadamente um ano.

Por isso, diante de uma perda rápida de memória, alterações de comportamento associadas a dificuldades motoras ou outros sintomas neurológicos de evolução acelerada, a recomendação é buscar avaliação médica especializada.

Diagnóstico depende de vários exames

Não existe um único exame capaz de identificar sozinho todos os casos. O diagnóstico é construído a partir da avaliação clínica e da combinação de exames.

A ressonância magnética do crânio pode apresentar alterações características em determinadas regiões do cérebro, incluindo o chamado “sinal da fita cortical”.

Outro recurso é a análise do líquido cefalorraquidiano (líquor). O exame RT-QuIC pode detectar atividade relacionada à proteína priônica e apresenta elevada especificidade quando utilizado no contexto clínico adequado. A pesquisa da proteína 14-3-3 também pode contribuir para a investigação.

O eletroencefalograma (EEG) pode identificar padrões de atividade elétrica cerebral que ajudam na avaliação.

A confirmação definitiva, entretanto, depende da análise neuropatológica do tecido cerebral.

Não é transmitida pelo convívio

A repercussão da doença também costuma gerar dúvidas sobre a possibilidade de transmissão. A forma clássica da DCJ não é transmitida pelo convívio cotidiano.

Contato físico, ar, saliva e relações sociais comuns não são formas de transmissão. As formas adquiridas são extremamente raras e estão relacionadas principalmente a situações médicas específicas, como determinados procedimentos realizados no passado.

Também existe a variante da Doença de Creutzfeldt-Jakob, relacionada à exposição à encefalopatia espongiforme bovina, conhecida como doença da “vaca louca”.

Já a forma esporádica ocorre aparentemente de maneira espontânea e representa a maioria dos casos.

Não há cura

Atualmente, não existe tratamento capaz de curar a DCJ ou interromper sua progressão. O atendimento é direcionado ao controle dos sintomas e à manutenção do conforto e da qualidade de vida.

O paciente pode precisar de acompanhamento multiprofissional, incluindo neurologia, fisioterapia, fonoaudiologia e nutrição. Alterações na deglutição, por exemplo, podem exigir cuidados específicos para reduzir o risco de engasgos e outras complicações.

Como a evolução costuma ser rápida, a participação da família também é fundamental para organizar os cuidados e discutir com a equipe de saúde as medidas necessárias para preservar o conforto e a dignidade do paciente.

Caso nas redes sociais aumentou interesse sobre doença

A repercussão do caso de Lito Sousa nas redes sociais fez com que a Doença de Creutzfeldt-Jakob passasse a ser mais comentada pelo público, trazendo dúvidas sobre sintomas, evolução e transmissão.

Especialistas, porém, alertam que sintomas isolados não permitem concluir que uma pessoa tenha DCJ. Alterações de memória, comportamento, equilíbrio ou movimentos involuntários podem estar relacionadas a diversas condições neurológicas.

Por isso, a avaliação médica é fundamental, especialmente quando há deterioração cognitiva e motora rápida e progressiva.

Para o neurologista Pedro Levi, reconhecer a possibilidade da doença em um quadro compatível permite direcionar a investigação, evitar procedimentos desnecessários e, quando indicado, adotar medidas específicas de biossegurança. O diagnóstico também possibilita que os cuidados paliativos sejam iniciados precocemente, com atenção ao controle dos sintomas e ao apoio ao paciente e à família.

Tags: Creutzfeldt-Jakob, Lito Sousa, saúde,