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Campo Grande - quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Morre aos 81 anos Seu Vicente, um dos últimos guardiões da língua e da cultura Guató no Pantanal

Nascido de pai e mãe Guató, ribeirinho viveu às margens do rio São Lourenço e dedicou a vida à preservação da memória, dos costumes e do território de seus ancestrais

Michelly Perez - 05/08/2026 • 10:21

Foto: reprodução

Morreu aos 81 anos Vicente Manoel da Silva, conhecido como Seu Vicente, uma das principais referências da cultura Guató e um dos últimos grandes guardiões da língua tradicional do povo indígena no Pantanal. Ele foi encontrado morto em sua casa nesta terça-feira (4), às margens do rio São Lourenço, na região da Barra do São Lourenço. As primeiras informações indicam que a morte ocorreu por causas naturais.

O atendimento chegou a ser realizado pela equipe dos bombeiros da base avançada da Barra do São Lourenço, mas Seu Vicente não resistiu. A partida encerra a trajetória de um homem que dedicou a vida a manter viva uma das culturas mais antigas do território pantaneiro.

Filho de pai e mãe Guató, Vicente nasceu em 30 de maio de 1945 e era reconhecido como um dos poucos falantes da língua Guató, tornando-se uma referência na preservação de um idioma considerado patrimônio imaterial e fundamental para a identidade do povo.

Mesmo diante do reconhecimento, Seu Vicente nunca deixou o modo simples de viver que marcou sua história. Permaneceu no Pantanal, no território onde seus ancestrais viveram por gerações, pescando nos mesmos corixos frequentados por outros Guató e navegando pelas águas em sua tradicional canoa de um pau só.

Trajetória marcada pela resistência

Para o Instituto Homem Pantaneiro (IHP), que acompanhou de perto os últimos anos de sua caminhada, Seu Vicente representava a resistência e a conexão profunda entre o homem e a natureza.

“Nos últimos anos, tivemos o privilégio de caminhar ao lado de Seu Vicente de forma muito próxima”, destacou a instituição.

Entre as ações realizadas pelo IHP esteve a aquisição de sua primeira rabeta, que trouxe mais autonomia para seus deslocamentos pelo Pantanal, além da instalação de um sistema de energia solar e de uma geladeira em sua residência.

As melhorias buscavam proporcionar mais conforto ao guardião Guató, que continuava vivendo de acordo com suas tradições, cercado pelo rio, pela mata e pelas histórias de seu povo.

“Hoje, Seu Vicente parte para o encontro do Grande Espírito. Ao lado de Guadakan, o espírito protetor do Pantanal, temos a certeza de que seguirá como um grande guerreiro, guardião da memória, da cultura e da força do povo Guató”, afirmou o IHP em homenagem.

A trajetória de Seu Vicente deixa um legado que ultrapassa sua própria história. Sua voz, seus conhecimentos e sua relação com o território permanecem como parte da memória do Pantanal e da luta pela preservação da cultura Guató.

Ele deixa como herança a sabedoria de quem viveu em harmonia com as águas e a certeza de que sua presença continuará marcada nos rios, corixos e caminhos que ajudou a proteger.

Tags: Comunidade, Pantanal, Seu Vicente,