Campo Grande - segunda-feira, 28 de setembro de 2026
PlantSpec identifica materiais clonais ainda no viveiro e pode ajudar a reduzir perdas econômicas e o desperdício de recursos
Michelly Perez - 21/09/2026 • 08:54
Fotos: UFMS
Uma tecnologia desenvolvida em Mato Grosso do Sul está usando luz e inteligência artificial para identificar materiais clonais de eucalipto ainda nas primeiras etapas da produção. Batizada de PlantSpec, a plataforma foi criada pelos pesquisadores Edson Antonio Batista e Jader Lucas Perez, da Faculdade de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo e Geografia (Faeng) da UFMS, e busca evitar que uma escolha equivocada de material vegetal só seja percebida anos depois, quando grandes áreas já estiverem plantadas.
A solução foi desenvolvida pela Damine Tecnologia, startup fundada pelos pesquisadores e acelerada no HUB Pantanal Inovação e Modelagem Empreendedora (Pime) da UFMS. O projeto conquistou o segundo lugar no Desafio Pantanal Tech de Inovação 2026.

O problema ganhou dimensão a partir de uma demanda do próprio setor produtivo. A Suzano procurou a equipe para desenvolver uma forma mais rápida de identificar materiais clonais de eucalipto em ambiente operacional, como os viveiros. A partir dessa demanda, os pesquisadores reuniram conhecimentos em sistemas embarcados, inteligência artificial, espectroscopia e processamento de sinais.
Na prática, o equipamento funciona a partir da chamada assinatura espectral. Uma folha de eucalipto é colocada em um compartimento e recebe iluminação controlada. A resposta da planta à luz é capturada e processada por algoritmos.
Os dados são então comparados, por meio de modelos de inteligência artificial, com uma biblioteca espectral proprietária desenvolvida durante o projeto. O objetivo é transformar uma medição complexa em uma informação que possa ser utilizada diretamente na tomada de decisões.
A tecnologia pode auxiliar na confirmação da identidade clonal e na rastreabilidade do material vegetal, relacionando as informações obtidas aos registros de origem e produção das mudas.
A importância da ferramenta está no tempo necessário para perceber os efeitos de uma decisão tomada no início da produção. Um material genético identificado de maneira inadequada ou plantado em uma região onde não apresenta o desempenho esperado pode ocupar grandes áreas antes que a perda de produtividade seja identificada.
Em Mato Grosso do Sul, a escala da produção ajuda a dimensionar esse desafio. A Suzano mantém 457 mil hectares de plantações de eucalipto no Estado. As unidades de Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo têm capacidade instalada para produzir 5,8 milhões de toneladas de celulose por ano. Em 2025, primeiro ano completo de operação da fábrica de Ribas do Rio Pardo, foram produzidas 2,58 milhões de toneladas.
Segundo os pesquisadores, o PlantSpec pode permitir que informações sobre a planta sejam obtidas muito antes de ser necessário esperar anos para observar seu desempenho no campo.
A expectativa é que novos biomarcadores espectrais ampliem o uso da plataforma para informações fisiológicas e fenotípicas. Essas possibilidades, porém, ainda precisam ser validadas experimentalmente.
Além do impacto econômico, os pesquisadores apontam um possível benefício ambiental. A identificação mais precisa dos materiais pode ajudar a evitar que água, solo e outros insumos sejam utilizados durante anos em plantas que não apresentam o desempenho esperado.
A proposta é aumentar a rastreabilidade e a confiabilidade das informações sobre o material vegetal e, futuramente, permitir a identificação mais precoce de alterações no comportamento das plantas.
“O benefício ambiental está muito associado a tomar decisões mais assertivas e mais cedo, evitando que recursos naturais sejam empregados durante anos em materiais inadequados”, afirmam os pesquisadores.
Embora equipamentos de medição espectral já existam, a proposta do PlantSpec é ir além da apresentação de um gráfico que precise ser interpretado por um especialista. A equipe trabalha para transformar diretamente a medição em uma informação objetiva para o operador.
A plataforma reúne instrumentação, processamento de sinais, inteligência artificial, bibliotecas espectrais proprietárias e biomarcadores digitais. A intenção é desenvolver um equipamento robusto e simples de utilizar nos viveiros.
Atualmente, o PlantSpec está no nível TRL 5 de maturidade tecnológica, o que significa que já possui um protótipo funcional testado em ambiente operacional representativo, incluindo viveiros e áreas de transição da Suzano. O próximo passo é ampliar as campanhas experimentais e as bibliotecas espectrais, além de aumentar a robustez dos modelos.
Para os pesquisadores, o projeto também mostra o potencial de Mato Grosso do Sul para produzir tecnologia voltada à própria cadeia de celulose e silvicultura.
O Estado se tornou um dos principais polos da indústria de celulose e biomateriais, e a expansão do setor abre espaço para o desenvolvimento local de soluções tecnológicas. O PlantSpec nasceu justamente da aproximação entre pesquisa universitária e uma demanda concreta da indústria.
A arquitetura da plataforma foi pensada para, no futuro, ampliar as aplicações para viveiros, produtores de mudas, programas de melhoramento genético, centros de pesquisa e outros segmentos da cadeia.
Os recursos obtidos por meio do Tecnova 3 estão sendo utilizados para ampliar a base de dados espectrais, aprimorar os modelos de inteligência artificial e desenvolver uma nova configuração do equipamento, mais prática e adequada às condições de operação.
A equipe também trabalha na proteção da propriedade intelectual, nas validações e na estruturação do modelo de negócio. A expectativa dos pesquisadores é chegar, ao longo de 2027, a uma versão preparada para iniciar a inserção comercial e, posteriormente, ampliar a utilização no setor florestal e desenvolver aplicações para outras culturas e cadeias do agronegócio.
Para os fundadores da Damine, a trajetória do PlantSpec também evidencia como a pesquisa universitária pode se transformar em inovação, tecnologia e empreendimento. A experiência começou dentro dos laboratórios da UFMS e avançou para uma solução desenvolvida em parceria com o setor produtivo.
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