Campo Grande - terça-feira, 29 de setembro de 2026
“Chamas da Tradição” acompanha a trajetória da comunidade Mãe Terra, em Miranda, desde a retomada do território até a criação de brigadas voluntárias
Michelly Perez - 31/08/2026 • 09:56
Foto: divulgação
Quando o fogo avança pelo Pantanal, o combate às queimadas costuma ser associado ao trabalho de bombeiros e equipes especializadas. Na Aldeia Mãe Terra, em Miranda, porém, a própria comunidade decidiu assumir parte dessa batalha. Desde 2020, moradores integram brigadas voluntárias que atuam para impedir que as chamas se espalhem enquanto aguardam a chegada do Corpo de Bombeiros e do Prevfogo.
Essa história de resistência é contada no documentário “Chamas da Tradição”, dirigido pela cineasta sul-mato-grossense Thauanny Maíra e roteirizado em parceria com Cainã Siqueira. Financiado pela Lei Paulo Gustavo, o filme acompanha a comunidade Terena a partir de duas histórias que se cruzam: a retomada do território e a luta contra o fogo que ameaça a terra e o modo de vida dos moradores.
O ponto de partida é a própria formação da aldeia. A Mãe Terra surgiu em 2005, após a retomada do território por um grupo de 21 famílias. Para os moradores, a relação com a terra é parte fundamental da identidade e da sobrevivência da comunidade.
“Não tem povo sem terra, nem terra sem povo”, é um dos motes que atravessam o documentário.
A diretora explica que a ideia inicial era produzir um filme sobre os incêndios no Pantanal. Durante a pesquisa, entretanto, a equipe percebeu que não seria possível falar sobre o fogo sem mostrar os impactos provocados pelas queimadas nas comunidades indígenas.
“O fogo não era o protagonista. A Mãe Terra, com todos os seus personagens, virou a protagonista”, explica Thauanny.
A mudança de perspectiva fez com que o documentário passasse a abordar não apenas os incêndios, mas também a história da aldeia, a retomada do território e as estratégias desenvolvidas pelos moradores para enfrentar os problemas provocados pelo fogo.
A criação das brigadas voluntárias, em 2020, é um dos exemplos dessa transformação.
Moradores da aldeia passaram a atuar diretamente no combate inicial às queimadas, tentando evitar que o fogo se espalhe até a chegada das equipes profissionais. As brigadas também contam com a participação de mulheres.
Para o roteirista Cainã Siqueira, acompanhar essa mobilização foi fundamental para entender que a relação da comunidade com o fogo não poderia ser retratada apenas como uma história de perdas.
“O filme surgiu com a ideia de falar sobre os incêndios no Pantanal, mas entendemos que não dava para falar sobre isso sem falar sobre como eles influenciavam as comunidades indígenas”, conta.
As queimadas atingem o cultivo, o cotidiano e a relação dos moradores com o território. Ao mesmo tempo, a ameaça fez com que a comunidade desenvolvesse novas formas de organização e proteção da própria terra.
O combate ao fogo, porém, é apenas uma das frentes mostradas pelo documentário. A produção também acompanha iniciativas voltadas à preservação da cultura Terena.
Entre elas está a Escola Quintal, criada dentro da comunidade para recuperar costumes e conhecimentos que foram sendo perdidos ao longo das gerações.
Semanalmente, moradores se reúnem para praticar tradições, conhecer elementos da própria cultura e fortalecer os vínculos entre diferentes gerações.
O vice-cacique da Aldeia Mãe Terra, João Leôncio, conhecido como Kambu, destaca justamente o papel do documentário como registro para as novas gerações.
“A importância desse documentário é que fica registrado para as crianças”, afirma. Segundo ele, o material contribui para preservar a identidade, a língua, o artesanato e a espiritualidade da comunidade.
Kambu também espera que o filme ajude a ampliar o apoio a iniciativas de recuperação das nascentes, das florestas e de revitalização da língua Terena.
A produção do documentário envolveu uma etapa de pesquisa e uma visita prévia à comunidade, quando a equipe conheceu as famílias, a culinária, as músicas, as tradições religiosas e os principais desafios enfrentados pelos moradores.
As gravações foram realizadas em apenas dois dias. Até mesmo a chuva acabou entrando na história da produção.
“Em um dos dias ficou chovendo bastante, então a gente teve que se virar do jeito que dava para a chuva não estragar o áudio, para a gente conseguir gravar, não molhar os equipamentos”, lembra Thauanny.
Aos 26 anos, a cineasta sul-mato-grossense, que atualmente mora em São Paulo, já havia dirigido o documentário “A Margem é o Centro”, sobre o bairro Moreninhas, em Campo Grande, quando tinha 20 anos.
Para ela, o cinema documental também é uma maneira de aproximar públicos de realidades que muitas vezes permanecem desconhecidas.
“Minha ligação com o documentário é conhecer outros pontos de vista, entender mais sobre as histórias, mas também apresentar para outras pessoas, para quebrar um pouco do estigma que elas criam sobre assuntos que não conhecem”, afirma.
“Chamas da Tradição” teve as primeiras exibições na última semana. O filme foi apresentado no dia 21 no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), no dia 24 na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), para estudantes da disciplina de Análise Fílmica, e também na própria Aldeia Mãe Terra, no dia 22.
A sessão realizada na comunidade reuniu os moradores para assistir ao registro da própria história.
A equipe também planeja realizar uma exibição aberta ao público em Campo Grande, ainda sem data definida. Estão previstas ainda sessões em escolas públicas e inscrições do documentário em festivais nacionais e internacionais.
Para a equipe de produção, o principal aprendizado durante o projeto foi justamente a relação da comunidade com o território, o cuidado com a natureza e a importância de preservar conhecimentos transmitidos entre gerações.
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