Campo Grande - quarta-feira, 15 de julho de 2026
Pesquisa indica aumento da temperatura, redução das chuvas e impactos na agricultura familiar e risco de incêndios
Michelly Perez - 15/07/2026 • 09:03
Foto: Paulo Robson
O Pantanal pode enfrentar um futuro mais quente, seco e desafiador nas próximas décadas. É o que aponta o estudo Climate Change and Family Farming in the Pantanal region of South America, que projeta aumento das temperaturas em todo o bioma até 2070 e mudanças na distribuição das chuvas, com reflexos sobre os recursos hídricos, a produção rural e a biodiversidade.
A pesquisa foi conduzida pela doutora em Ecologia e Conservação Luciana Vicente Silva, técnica de campo da Ecoa na Paisagem Modelo Pantanal, região localizada entre Corumbá e Ladário.
As projeções foram elaboradas com base no cenário climático RCP 4.5, considerado intermediário, que pressupõe redução gradual das emissões de gases de efeito estufa nas próximas décadas.
Segundo o estudo, mesmo nesse cenário, algumas áreas do Pantanal podem registrar aumento superior a 2,5°C até 2070, principalmente na porção norte do bioma.
“O estudo utilizou projeções baseadas no cenário climático RCP 4.5, considerado intermediário. Mesmo assim, os impactos já são suficientemente significativos para exigir ações de adaptação desde agora”, afirma Luciana.
Além do aquecimento, o levantamento aponta uma possível redistribuição das chuvas no Pantanal. A tendência é de redução da precipitação na região norte, onde estão importantes nascentes e áreas de recarga hídrica, enquanto o sul do bioma poderá registrar um discreto aumento das chuvas.
A pesquisa estima uma redução de até 200 milímetros de chuva na região norte, o que pode comprometer o chamado pulso de inundação — fenômeno responsável por regular o funcionamento ecológico do Pantanal.
Segundo os pesquisadores, a diminuição da água nas áreas de nascente pode reduzir o volume que chega aos rios, baías, corixos e vazantes, afetando atividades como a pesca, a pecuária, a agricultura familiar e a conservação da biodiversidade.
As projeções científicas coincidem com a percepção de famílias agricultoras entrevistadas durante a pesquisa.
De acordo com Luciana, os produtores relataram aumento das temperaturas, chuvas mais irregulares, secamento de córregos e áreas alagadas, além da intensificação das queimadas.
As mudanças já têm provocado adaptações nas práticas agrícolas e no manejo dos animais, além de elevar os custos de produção.
Outro impacto observado foi o aumento dos conflitos entre produtores rurais e animais silvestres, consequência da escassez de água e alimentos nos ambientes naturais durante os períodos de seca.
Os pesquisadores defendem que as projeções climáticas sirvam de base para políticas públicas voltadas à adaptação do Pantanal às mudanças climáticas.
Entre as prioridades apontadas estão ações de segurança hídrica, fortalecimento da agricultura familiar, assistência técnica, restauração ambiental, prevenção aos incêndios florestais e incentivo a sistemas agroflorestais.
Segundo o estudo, combinar conhecimento científico com a experiência das comunidades locais será fundamental para reduzir os impactos das mudanças climáticas e aumentar a capacidade de adaptação de um dos biomas mais importantes do planeta. (com informações Ecoa)
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