Campo Grande - quinta-feira, 9 de julho de 2026
Oferta restrita para abate, demanda aquecida da China e valorização do bezerro sustentaram o mercado; El Niño acende alerta
Michelly Perez - 08/07/2026 • 08:50
Foto: scotconsultoria
O mercado do boi gordo encerrou o primeiro semestre de 2026 em um cenário atípico. Diferentemente do comportamento sazonal registrado na maior parte dos anos, quando os preços costumam recuar entre janeiro e junho devido à maior oferta de animais para abate, as cotações avançaram impulsionadas pela baixa disponibilidade de bovinos terminados e pelo forte ritmo das exportações brasileiras.
Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostra que a média do Indicador do Boi Gordo CEPEA/ESALQ, referência para o mercado paulista, atingiu R$ 347,59 por arroba em junho, alta real de 4,6% em relação aos R$ 332,14 registrados em janeiro, considerando a inflação medida pelo IGP-DI.
O pico das cotações ocorreu em abril, quando a arroba alcançou média de R$ 365,93, refletindo a transição entre a safra e a entressafra, período em que tradicionalmente há menor oferta de animais prontos para o abate.
Segundo pesquisadores do Cepea, o comportamento do mercado foi sustentado por um conjunto de fatores. Entre eles estão a escassez de boi gordo disponível, a valorização do bezerro, a elevada participação de fêmeas nos abates — que reduz a capacidade de reposição do rebanho nos próximos ciclos — e a demanda internacional aquecida, especialmente da China, principal compradora da carne bovina brasileira.
Se o primeiro semestre foi marcado pela valorização da arroba, o segundo começa com um novo desafio para os pecuaristas: os impactos do clima sobre a produção.
Uma nota técnica elaborada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) aponta mais de 95% de probabilidade de permanência do fenômeno El Niño até o fim de 2026, com possibilidade de continuidade no início de 2027.
A previsão é de um evento de intensidade forte a muito forte, capaz de provocar excesso de chuvas na Região Sul e estiagem prolongada no Norte e Nordeste.
Para a pecuária, o cenário representa um desafio sanitário. Em áreas com excesso de umidade, cresce o risco de proliferação de fungos, bactérias e doenças respiratórias, além de problemas de casco. Já nas regiões afetadas pela seca, a redução da oferta de pastagens e o estresse térmico comprometem a imunidade dos animais e aumentam a vulnerabilidade a infecções.
Além disso, especialistas alertam que o transporte de animais entre propriedades, frigoríficos e leilões exige protocolos rigorosos de biossegurança para evitar a disseminação de doenças entre os rebanhos.
Com preços sustentados e custos de produção sob pressão, o setor inicia o segundo semestre atento não apenas ao comportamento do mercado internacional, mas também aos efeitos do clima sobre a produtividade e a sanidade animal. A expectativa é que a oferta restrita continue dando sustentação às cotações, enquanto os produtores reforçam estratégias para reduzir os impactos provocados pelos eventos climáticos extremos. (com noticiasagricolas)