ícone whatsapp

Economia • Confira tudo que você precisa saber sobre números e negócios

Campo Grande - sábado, 8 de agosto de 2026

Elas estão construindo o novo MS: mulheres invadem canteiros e conquistam espaço na construção civil

Setor que abriu mais de 6 mil vagas neste ano deixa de ser território exclusivamente masculino e muda a vida de trabalhadoras

Michelly Perez - 07/08/2026 • 08:38

Foto: divulgação

Durante muito tempo, a cena era quase sempre a mesma: homens de capacete, botas e ferramentas nas mãos. Hoje, os canteiros de obras de Mato Grosso do Sul começam a ganhar novos rostos. Mulheres estão chegando, aprendendo profissões, assumindo funções técnicas e até ocupando cargos de liderança em um dos setores que mais crescem no Estado.

A mudança acompanha a própria transformação econômica de Mato Grosso do Sul. Com bilhões de reais em investimentos previstos para os próximos anos, a construção civil se tornou peça fundamental para tirar grandes projetos do papel — e passou a exigir uma mão de obra cada vez mais qualificada e diversa.

Mas, para quem está entrando nesse mercado, a mudança vai muito além dos números.

Marluce de Oliveira Velasquez trabalha como auxiliar de serviços gerais em uma construtora. Foi depois de ouvir o incentivo de uma engenheira que decidiu olhar para a construção civil como uma possibilidade de futuro. Hoje, ela aprende uma nova profissão no curso de eletricista residencial da Faculdade Senai da Construção, em Campo Grande.

A história dela se repete entre as 78 mulheres que iniciaram neste ano cursos como Pedreira de Alvenaria, Pintora Imobiliária e Eletricista Predial.

“Meu pai dizia para eu estudar e melhorar de vida. Eu não dava importância. Hoje sinto o peso daquelas palavras. Hoje entendo o que meu pai falou. Pretendo me aprofundar e aproveitar todas as oportunidades que surgirem. Estou correndo atrás para melhorar cada vez mais”, conta Marluce.

Do capacete à independência

O que para algumas começa como oportunidade de emprego, para outras significa independência.

Aos 60 anos e depois de mais de três décadas no serviço público, Ramona Pinto de Souza decidiu voltar a estudar. O objetivo? Aprender a fazer pequenos reparos em casa sem precisar depender de ninguém.

“Na hora de chamar um profissional, às vezes não é o horário que a gente precisa, ou não fica como a gente quer. Então, resolvi aprender as técnicas e fazer por minha conta”, afirma.

É justamente essa autonomia que o projeto Elas Constroem busca ampliar. A iniciativa oferece formação gratuita para mulheres interessadas em entrar na indústria da construção e aproxima as novas profissionais das empresas.

E a porta de entrada pode virar emprego.

Construtoras como Plaenge, Vanguard, Joy e MRV participam de feiras de contratação para encontrar profissionais entre as alunas que concluem os cursos.

Em 2025, foram formadas 21 operadoras de BobCat, 10 assentadoras de revestimento e nove pintoras de obras. Neste ano, a previsão é ampliar o número de mulheres capacitadas, incluindo uma turma de orçamentista de obras.

Competência não usa saia nem calça

A mudança já chegou também aos cargos de comando.

A engenheira civil Valéria Gabas entrou em uma profissão onde a presença masculina ainda era predominante e construiu uma carreira até alcançar uma posição de liderança na Plaenge.

Para ela, cada mulher que ocupa um espaço antes dominado por homens ajuda a abrir caminho para muitas outras.

“À medida que a gente se fortalece e divulga essa presença feminina, as mulheres se sentem aptas a também avançar nessas carreiras”, afirma.

A coordenadora pedagógica do Senai, Dyany Melchior, observa que as próprias empresas passaram a perceber vantagens na ampliação da presença feminina nos canteiros.

Organização, atenção aos detalhes e cuidado na execução estão entre as características valorizadas pelos empregadores.

“As mulheres olham em detalhes, têm um capricho maior, e isso gera menos perda de materiais. As empresas parceiras do projeto nos pedem para treiná-las o máximo possível, e muitas mulheres já saem empregadas assim que concluem o curso”, explica.

Um Estado que não para de construir

A transformação acontece em um momento de forte expansão da construção civil em Mato Grosso do Sul.

Nos primeiros seis meses de 2026, o setor abriu 6.066 novos empregos formais, quase 64% de todas as vagas criadas pela indústria no período. Ao final do semestre, eram 44.741 trabalhadores com carteira assinada na construção civil.

E a tendência é de crescimento.

Mato Grosso do Sul tem mais de R$ 115 bilhões em investimentos projetados até 2030, impulsionados por setores como celulose, bioenergia, mineração e transformação industrial.

Cada nova fábrica, usina ou empreendimento exige uma estrutura que começa muito antes da inauguração. São meses ou anos de obras, milhares de trabalhadores e uma cadeia de profissionais responsável por transformar concreto, aço, projetos e cálculos em desenvolvimento.

O que está sendo construído vai além das paredes

Desde 2006, o número de indústrias no Estado quase triplicou. Mais de 180 mil empregos foram gerados no período, enquanto Mato Grosso do Sul avançou para recordes nas exportações de produtos industriais.

Mas a transformação não pode ser medida apenas em toneladas, bilhões ou quilômetros de obras.

Ela também aparece quando uma mulher decide aprender a operar uma máquina, quando outra pega uma ferramenta pela primeira vez ou quando uma engenheira chega ao comando de uma grande empresa.

Para o presidente da Fiems, Sérgio Longen, a indústria tem papel central nesse processo de desenvolvimento.

“A Fiems tem participado em cada ponto, em cada lugar, em cada empresa que chega, levando ações para toda a sociedade, seja na área de educação, saúde, qualificação profissional e, acima de tudo, desenvolvimento econômico”, afirma.

Em Mato Grosso do Sul, enquanto máquinas levantam prédios e novos investimentos redesenham a economia, mulheres também levantam muros invisíveis e ocupam espaços que, durante décadas, pareciam reservados aos homens. O novo MS está sendo construído por elas também.

Tags: Construção, economia, Mulheres,