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Campo Grande - quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Menos milho no mercado? Decisão dos EUA pode mexer com preço em MS

USDA reduziu previsão de produtividade e estoques norte-americanos, enquanto Estado deve colher 20% menos milho nesta safra

Michelly Perez - 17/08/2026 • 09:09

Foto: divulgação-Aprosoja MS

O milho produzido em Mato Grosso do Sul pode encontrar um cenário mais favorável nas próximas semanas. A sinalização vem de longe, dos Estados Unidos, maior potência agrícola do mundo, mas pode ter reflexos diretos na comercialização do grão produzido pelos agricultores sul-mato-grossenses.

O novo relatório WASDE, divulgado em agosto pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), apontou redução na produtividade e nos estoques finais de milho norte-americanos. Ao mesmo tempo, a previsão de exportações foi elevada, indicando uma possível pressão maior sobre a oferta disponível no mercado internacional.

A produtividade projetada nos Estados Unidos caiu de 183 para 180,7 sacas por acre entre julho e agosto. Já a estimativa de exportações subiu de 3,2 bilhões para 3,275 bilhões de bushels.

Com mais milho previsto para sair do país e menos produto disponível nos estoques, a projeção de estoque final norte-americano caiu de 1,790 bilhão para 1,653 bilhão de bushels. O preço médio recebido pelos produtores também foi revisado para cima, passando de US$ 4,40 para US$ 4,50 por bushel.

O movimento não ficou restrito aos Estados Unidos. No mercado mundial, o USDA reduziu de 275,26 milhões para 274,66 milhões de toneladas a previsão de estoque final de milho para a safra 2026/27.

Para o Brasil, a estimativa também ficou menor. O estoque final projetado para o próximo ciclo passou de 11,10 milhões para 10,10 milhões de toneladas.

E o que isso tem a ver com Mato Grosso do Sul?

A resposta está na combinação entre oferta internacional menor e uma produção estadual que também deve recuar.

Segundo dados da Aprosoja/MS e do Projeto SIGA-MS, Mato Grosso do Sul plantou cerca de 2,206 milhões de hectares de milho na segunda safra 2025/26, área 3% maior que a do ciclo anterior.

O problema é que mais área não significou mais milho.

A produtividade média está estimada em 84,2 sacas por hectare, queda de 22,4%. Com isso, a produção deve chegar a 11,139 milhões de toneladas, redução de 20,1% em relação à safra anterior.

Ou seja: justamente quando o mercado internacional começa a indicar uma oferta mais apertada, Mato Grosso do Sul também terá menos milho disponível.

Colheita ainda está no campo

Outro ponto de atenção é o ritmo da colheita. No levantamento realizado em 11 de agosto, o SIGA-MS apontava que metade da área monitorada já havia sido colhida.

O percentual estava 6,4 pontos abaixo do registrado no mesmo período do ano passado.

As condições climáticas também entram nessa conta. Chuvas irregulares, ventos fortes e episódios pontuais de granizo continuam entre os fatores que preocupam os produtores na reta final da colheita.

Para o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, o cenário não significa que o milho necessariamente terá uma disparada de preços, mas cria condições para maior sustentação das cotações.

Segundo ele, o produtor deve observar com atenção o comportamento do mercado antes de definir o momento da venda, já que fatores internos e externos podem influenciar diretamente a remuneração pelo grão.

Indústria de etanol aumenta disputa pelo milho

Dentro de Mato Grosso do Sul, há ainda outro movimento que pode influenciar o mercado: o avanço da produção de etanol de milho.

Com mais indústrias utilizando o grão como matéria-prima, aumenta também a disputa pelo produto que sai das lavouras. Ao mesmo tempo, o Estado enfrenta um problema antigo: a falta de espaço suficiente para armazenar toda a produção.

Na prática, o produtor precisa colocar vários fatores na balança antes de vender: preço internacional, câmbio, demanda das indústrias, custo do frete, disponibilidade de armazéns e ritmo da colheita.

É justamente essa combinação que pode determinar se o cenário mais favorável apontado pelo USDA chegará, de fato, ao preço recebido pelo agricultor em Mato Grosso do Sul.

Soja segue em outro ritmo

Se o milho ganhou um novo ingrediente de pressão sobre a oferta, a soja apresenta um cenário mais equilibrado.

O USDA manteve em 186 milhões de toneladas a previsão para a produção brasileira de soja na safra 2026/27 e em 118 milhões de toneladas a estimativa de exportações.

Nos Estados Unidos, a projeção de produção subiu de 4,475 bilhões para 4,519 bilhões de bushels. Parte desse aumento, porém, deve ser absorvida pelo crescimento do esmagamento da oleaginosa.

Em Mato Grosso do Sul, a safra 2025/26 terminou com produção de 16,744 milhões de toneladas, alta de 19,1% em relação ao ciclo anterior. A produtividade média chegou a 60,40 sacas por hectare, crescimento de 16,6%.

Para a Aprosoja/MS, sem uma mudança significativa na oferta mundial ou brasileira, o comportamento da soja deve continuar mais dependente de fatores como câmbio, frete e ritmo das compras internacionais, principalmente da China.

Próximo sinal vem em setembro

O mercado ainda terá novos dados para acompanhar. O próximo relatório WASDE está previsto para 11 de setembro e poderá trazer novas revisões sobre produção, consumo, exportações e estoques.

Em Mato Grosso do Sul, os próximos levantamentos do Projeto SIGA-MS também devem mostrar como a colheita do milho segunda safra avança e qual será o tamanho final da produção.

Até lá, o produtor tem um cenário para observar de perto: menos milho projetado nos estoques dos Estados Unidos, menor produção esperada em Mato Grosso do Sul e uma indústria local cada vez mais interessada no grão. A combinação pode não garantir preços maiores, mas coloca o milho no radar de quem precisa decidir quando vender.

Tags: EUA, Mercado, Milho,