Campo Grande - quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Estado produz 27,9 milhões de toneladas de soja e milho, mas estrutura de armazenagem cobre apenas 58,8% do recomendado
Michelly Perez - 01/10/2026 • 11:26
Foto: Marcos Maluf
Mato Grosso do Sul está colhendo cada vez mais, mas enfrenta um problema que aparece depois que os grãos saem da lavoura: falta espaço para armazenar a produção. Um levantamento da Aprosoja/MS aponta um déficit de aproximadamente 12 milhões de toneladas na capacidade de armazenagem do Estado, revelando um dos principais gargalos para o avanço do agronegócio sul-mato-grossense.
Na safra 2025/2026, a produção de soja e milho deve chegar a 27,9 milhões de toneladas. Enquanto isso, MS possui atualmente capacidade para armazenar 17,19 milhões de toneladas, distribuídas em 799 complexos armazenadores de 65 municípios.
Pelos parâmetros técnicos utilizados no estudo, seriam necessários 29,22 milhões de toneladas de capacidade para atender à recomendação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Ou seja, a estrutura existente representa apenas 58,8% do necessário.
O problema também está espalhado pelo interior. Dos 78 municípios produtores analisados, 71 apresentam déficit de armazenagem.
Entre os grandes produtores, a situação chama atenção. Ponta Porã e Maracaju somam cerca de 2,43 milhões de toneladas de déficit, segundo o levantamento.
“A análise da capacidade de armazenamento em Mato Grosso do Sul revela um cenário de grande contraste”, afirma o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes. Segundo ele, o déficit estrutural pode comprometer a competitividade do agronegócio estadual no médio e longo prazo.
A distribuição da estrutura também revela um desafio logístico. Dourados concentra a maior capacidade de armazenagem do Estado, com aproximadamente 2,42 milhões de toneladas, e está entre os sete municípios que possuem saldo positivo entre a estrutura disponível e a necessidade calculada.
Também apresentam saldo positivo Bataguassu, Batayporã, Porto Murtinho, Sidrolândia, Brasilândia e Três Lagoas.
Ao mesmo tempo, Dourados, Sidrolândia, Maracaju, Ponta Porã e São Gabriel do Oeste concentram 49,9% da capacidade de armazenagem identificada em MS, embora respondam por 37,6% da produção considerada no estudo.
Outro ponto levantado pelo painel é a relação entre armazenagem e transporte. Cerca de 41% da capacidade de armazenamento de MS está localizada a até 30 quilômetros da BR-163.
Quando são consideradas todas as rodovias federais, o percentual sobe para 88,6%.
Na ferrovia, porém, a realidade é diferente. Apesar de Mato Grosso do Sul possuir 1.581 quilômetros de malha ferroviária, apenas 378 quilômetros têm circulação regular. Segundo o levantamento, 306 unidades de armazenagem estão localizadas em um raio de até 30 quilômetros das ferrovias, correspondendo a 41,6% da capacidade estadual.
Nas proximidades da Malha Norte, única com operação regular, estão apenas 7,9% da capacidade de armazenagem.
As hidrovias têm participação ainda menor: somente 3,9% da capacidade estadual está em um raio de até 30 quilômetros dos corredores hidroviários analisados.
O problema não surgiu de uma hora para outra. A série histórica analisada pela Aprosoja/MS mostra um descompasso entre o avanço da produção agrícola e a expansão da infraestrutura de armazenagem.
Em 2023, o déficit atingiu o maior nível da série, chegando a 21,53 milhões de toneladas. Naquele ano, a necessidade de armazenagem chegou a 35,07 milhões de toneladas, acompanhando uma das maiores produções de grãos do Estado.
O cenário ganha importância à medida que novas tecnologias aumentam a produtividade e as áreas cultivadas continuam avançando. Quanto maior a safra, maior também a pressão sobre uma estrutura que ainda não acompanha o ritmo de crescimento do campo.
A expansão da Rota Bioceânica também coloca a armazenagem no centro das discussões sobre infraestrutura. O corredor deverá criar uma nova alternativa para o escoamento da produção de Mato Grosso do Sul em direção aos portos do norte do Chile e ao Oceano Pacífico.
Nesse cenário, a localização dos armazéns pode se tornar estratégica para aproveitar diferentes rotas de transporte.
Porto Murtinho já apresenta superávit de armazenagem, mas o estudo aponta a necessidade de acompanhar a consolidação do corredor com expansão da infraestrutura nas regiões Oeste e Sudoeste.
Mais do que mostrar quanto falta espaço para guardar os grãos, os dados do Painel de Armazenagem permitem identificar onde estão os maiores gargalos e quais regiões podem se tornar alvo de novos investimentos.
O painel foi desenvolvido pela Aprosoja/MS com recursos do Fundems/Semadesc e reúne informações da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do levantamento de campo do Projeto SIGA-MS.
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