Campo Grande - segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Ausência dos dois candidatos dominou o confronto e Augusto Cury chegou a anunciar desistência e voltou atrás
Michelly Perez - 24/08/2026 • 09:17
Foto: Hadass Leventhal/g1
O primeiro debate entre candidatos à Presidência da República terminou tão marcado pelas ausências quanto pelos embates no palco. Lula e Flávio Bolsonaro não participaram, provocando ataques dos adversários e transformando o confronto da Band em uma disputa marcada por acusações, provocações e propostas de endurecimento no combate ao crime.
A ausência dos dois foi explorada desde antes do início do debate. Na chegada à emissora, Renan Santos (Missão) apareceu diante das câmeras segurando duas fraldas geriátricas, uma com o nome de Lula e outra com o de Flávio Bolsonaro. O gesto foi usado para ironizar a decisão dos dois de não comparecerem.

Foto: Daniel Teixeira/Estadão
Renan classificou os adversários como “fracassados” e “medrosos” e fez acusações relacionadas ao crime organizado, ao Banco Master e ao INSS.
Augusto Cury também quase ficou fora do debate. Cerca de 30 minutos antes do início, o candidato anunciou em uma transmissão nas redes sociais que não participaria diante das ausências de Lula e Flávio. Pouco depois, porém, voltou atrás, entrou na emissora e participou do confronto.
Já Ronaldo Caiado aproveitou o espaço para criticar diretamente os dois ausentes. O candidato defendeu a criação de uma lei que obrigue presidenciáveis a participar de debates, assim como já existe a exigência de registro de programa de governo.
“Você não pode admitir um problema que tem de um lado o ‘Dark horse’ e do outro ‘Dark lobby’. Então isso é a pauta de governança? Não ter coragem de vir ao debate?”, afirmou.
A segurança pública foi um dos principais temas do debate. Caiado defendeu a construção de presídios federais, o uso de scanners corporais e o monitoramento de unidades prisionais, citando medidas adotadas durante seu governo em Goiás.
O candidato também propôs o confisco de bens de integrantes de facções e a classificação dessas organizações como terroristas.
“Vou usar todas as forças, como a Aeronáutica, Marinha, o Exército Brasileiro”, declarou.
Renan Santos foi ainda mais duro. Ao falar sobre o combate às facções, afirmou que iniciaria o governo com um “banho de sangue contra os membros das facções”. Segundo ele, criminosos que se entregassem seriam presos, enquanto os que reagissem enfrentariam forças federais, guardas municipais e polícias estaduais.
Cury, por sua vez, defendeu uma maior integração entre as forças de segurança e resumiu sua visão com uma frase que chamou atenção durante o debate:
“Pior do que o crime organizado é o Estado desorganizado.”
O candidato propôs fortalecer a Polícia Federal e integrar as polícias Militar, Civil e Rodoviária, além de transformar parte das guardas municipais em uma força de combate à criminalidade.
A proposta de acabar com a escala 6×1 também provocou divergências.
Renan se posicionou contra a mudança e afirmou que a redução da jornada poderia elevar custos das empresas e provocar fechamento de postos de trabalho.
“Não acredite nesses políticos que estão dizendo pra você que você vai trabalhar menos e ganhar mais”, afirmou.
Cury discordou e defendeu a ampliação da escala 5×2, argumentando que trabalhadores precisam de mais tempo para a família e qualidade de vida. Ao mesmo tempo, reconheceu que determinados setores ainda dependem da escala 6×1.
Na discussão sobre política externa, Cury defendeu uma relação de igualdade com os Estados Unidos durante o governo Donald Trump.
“Eu sei como conversar de igual para igual, mas nunca vai ser uma relação subserviente”, afirmou.
O candidato também defendeu a reformulação das embaixadas brasileiras para promover o país não apenas como potência agrícola, mas como centro de biotecnologia e inovação. Também propôs investimentos em terras raras e energias renováveis e disse que buscaria manter boas relações tanto com os Estados Unidos quanto com a China.
Caiado aproveitou o tema para atacar Lula e afirmou que o presidente teria provocado conflitos com Trump por interesses eleitorais. Também criticou a atuação do Itamaraty, que classificou como “simplesmente porta-voz do PT”.
O escândalo envolvendo o Banco Master também entrou no confronto. Renan Santos acusou Lula e Flávio Bolsonaro de integrarem um “jogo de cartas marcadas” para chegar ao segundo turno.
Cury classificou a corrupção como “uma vergonha” e defendeu que crimes dessa natureza sejam tratados como hediondos e julgados em até seis meses.
Renan voltou a atacar os dois candidatos ausentes e afirmou que nenhum deles chegaria ao segundo turno, reforçando a crítica à polarização política.
A educação também entrou na disputa. Cury questionou Caiado sobre a ampliação do ensino técnico e afirmou que apenas cerca de 20% dos estudantes do ensino médio fazem formação profissional.
Caiado citou ações realizadas em Goiás e parcerias com o Sistema S. Segundo ele, a intenção é fazer com que o estudante conclua o ensino médio também com formação profissional e possa ingressar mais rapidamente no mercado de trabalho.
O candidato ainda destacou investimentos estaduais em inteligência artificial e afirmou que Goiás criou a primeira universidade de inteligência artificial do país.
Enquanto os candidatos se enfrentavam dentro da emissora, integrantes da Unidade Popular (UP) protestavam do lado de fora contra a ausência de Samara Martins, candidata da legenda à Presidência, entre os nomes convidados para o debate.
O episódio reforçou uma das principais críticas da noite: quem participa — e quem fica de fora — também virou parte da disputa eleitoral.
Lula havia sinalizado anteriormente que não participaria dos debates caso tivesse de “ouvir bobagem”. Flávio Bolsonaro condicionou sua participação à presença de Lula. Já Zema desistiu poucas horas antes do encontro e afirmou que, sem Lula e outros concorrentes, o debate havia perdido seu propósito.
A ausência dos três, somada à quase desistência de Cury e às provocações de Renan e Caiado, fez com que o primeiro debate presidencial de 2026 terminasse com uma pergunta que deve continuar no centro da campanha: quem terá coragem de enfrentar os adversários cara a cara nos próximos encontros? (com informações G1)
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