Campo Grande - segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Luiza Ribeiro critica interrupção do Sarau Delas e questiona se há tratamento desigual para manifestações culturais
Michelly Perez - 04/09/2026 • 09:38
Foto: Izaias Medeiros
A relação entre cultura, ocupação dos espaços públicos e atuação das forças de segurança virou tema de debate na Câmara Municipal de Campo Grande nesta quinta-feira (3). A vereadora Luiza Ribeiro (PT), presidenta da Comissão Permanente de Cultura, levou à Tribuna relatos de artistas sobre dificuldades para realizar eventos na cidade e criticou o que classificou como obstáculos e abordagens truculentas contra trabalhadores da cultura.
A parlamentar convidou Romilda Pizani, representante do Fórum de Cultura, para falar sobre os desafios enfrentados por artistas e produtores culturais. Entre os relatos apresentados estão episódios de pressão e ações policiais no Centro, principalmente na Rua 14 de Julho e na região da Esplanada Ferroviária.

Romilda defendeu que artistas sejam reconhecidos como trabalhadores da cultura e criticou a criminalização das manifestações culturais.
“É inadmissível a criminalização dos fazedores de cultura”, afirmou.
Ela também destacou a necessidade de garantir segurança para quem produz e participa de eventos culturais, além de políticas públicas que permitam a utilização dos espaços da cidade sem medo de perseguições ou abordagens consideradas abusivas.
“A cultura salva, precisa ser valorizada”, defendeu.
Para Luiza Ribeiro, os relatos revelam uma contradição na maneira como Campo Grande lida com a produção cultural. Segundo ela, enquanto artistas tentam ocupar praças, ruas e outros espaços públicos para promover atividades e encontros, também encontram barreiras que acabam afastando a população desses locais.
“Que cidade estamos construindo se aquilo que a gente consegue colocar pela cultura é destruído pela própria política pública?”, questionou.
Um dos casos citados pela vereadora foi o 4º Sarau Delas – Prêmio Márcia Zen 2026, realizado em alusão ao Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. O evento estava previsto para ocorrer no último fim de semana, na região central, mas acabou interrompido antes do início da programação.
A Prefeitura informou que uma fiscalização integrada foi realizada no sábado (29), após denúncias registradas pelo canal 156. A ação envolveu equipes da Planurb, Semades e Guarda Civil Metropolitana (GCM), com apoio da Polícia Militar e da Energisa.
Segundo a administração municipal, os fiscais constataram que a estrutura do evento estava sendo montada sem a autorização ambiental exigida pela legislação. A Semades notificou os responsáveis e determinou a paralisação da atividade.
A Prefeitura afirma que a notificação ocorreu exclusivamente pela ausência da autorização ambiental e que não houve aplicação de multa. A organização, por sua vez, informou que tinha autorização da Agetran para a interdição da via.
Durante a fiscalização, também foi encontrada uma ligação provisória de energia conectada diretamente à rede pública. Conforme a Prefeitura, a Energisa constatou que não havia solicitação ou autorização para a ligação e interrompeu o fornecimento.
A fiscalização acompanhou a retirada do palco, equipamentos de som, painel de LED e demais estruturas. Segundo o município, a ação terminou sem registro de incidentes.
A Prefeitura também ressaltou que não era responsável pela organização do Sarau Delas.
Apesar da justificativa apresentada pelo município, Luiza questiona a forma como as exigências são aplicadas e defende esclarecimentos sobre o tratamento dado a diferentes eventos realizados na região central.
A vereadora também levantou a possibilidade de haver tratamento desigual quando manifestações culturais estão relacionadas à população LGBTQIAPN+.
“Não podemos aceitar que a cultura seja tratada como caso de polícia ou que determinados grupos tenham mais dificuldades para ocupar a cidade do que outros”, afirmou.
Durante o pronunciamento, Luiza também citou o CEU das Artes, no Bairro Lageado. Segundo a vereadora, o espaço permanece fechado apesar de contar com teatro, quadras e estrutura que poderia ser utilizada pela comunidade.
Ela defendeu ainda a revisão e flexibilização da Lei do Silêncio, argumentando que a legislação não pode ser aplicada de maneira a inviabilizar apresentações, eventos e outras manifestações culturais.
Diante dos relatos, a vereadora anunciou que pretende propor uma Audiência Pública para discutir a relação entre cultura, ocupação dos espaços públicos e atuação das forças de segurança em Campo Grande.
A intenção é reunir artistas, produtores culturais e representantes do poder público para buscar medidas que garantam o direito à cultura, a liberdade de expressão artística e o uso democrático dos espaços da cidade.
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