Campo Grande - quinta-feira, 25 de junho de 2026
Enquanto prefeitura aposta em “modernização”, experiências em outras cidades apontam precarização, filas e perda de controle público
Michelly Perez - 27/03/2026 • 08:35
Foto: Izaías Medeiros
A saúde pública de Campo Grande voltou ao centro de uma forte polêmica. Um projeto piloto da prefeitura que prevê a transferência da gestão dos CRS Tiradentes e Aero Rancho para Organizações Sociais (OSs) dividiu vereadores, mobilizou servidores e levou o tema às ruas e à Câmara Municipal.
De um lado, a proposta é defendida como alternativa para melhorar a gestão diante da crise no sistema. De outro, é vista como um risco de privatização disfarçada, com possíveis impactos negativos no atendimento à população.
O debate ganhou força na Câmara Municipal de Campo Grande, que promete não votar a matéria sem ampla discussão. O presidente da Casa, Epaminondas Neto (Papy), afirmou que o processo será conduzido com cautela.
“ Então, nenhum projeto será votado apressadamente sem que o debate importante e profundo aconteça. Enquanto não forem esgotados todos os debates possíveis nós não votaremos nenhuma matéria que impacte a vida do servido”, declarou.
A proposta apresentada pela prefeita Adriane Lopes prevê um período de teste de um ano com a gestão das unidades 24h sendo feita por OSs. A justificativa é buscar soluções para um sistema considerado sobrecarregado.
Apesar do discurso de eficiência, o modelo de Organizações Sociais é alvo de críticas em diversas partes do país. Em São Paulo, onde a gestão por OSs já é amplamente adotada, trabalhadores da saúde denunciam um cenário de precarização crescente.
No ano passado, relatos reunidos pelo Fórum VivaSUS — movimento formado por profissionais e usuários do SUS — já apontaram problemas enfrentados como redução de equipes, sobrecarga de trabalho, metas consideradas incompatíveis com o cuidado integral e enfraquecimento do controle social.
Já no Rio de Janeiro, o cenário também é alvo de denúncias pela imprensa local. Na capital, a gestão por OSs e fundações tem sido associada à terceirização em larga escala, com relatos de atrasos salariais, contratos precários e redução de equipes. No âmbito estadual, a atuação da Fundação Saúde tem sido marcada por críticas envolvendo suspeitas de má gestão, apadrinhamento político e uso ineficiente de recursos públicos.
Segundo esses profissionais, a lógica de gestão privada tem transformado o atendimento em um modelo mais próximo do mercado, com foco em produtividade, o que impacta diretamente a qualidade do serviço prestado à população.
Além disso, há críticas sobre a perda de autonomia do poder público, já que grande parte dos recursos e da gestão passam a ser controlados por entidades privadas, mesmo sendo financiadas com dinheiro público.
Em Campo Grande, o tema já provoca forte reação. O plenário da Câmara foi ocupado por servidores e usuários do SUS, que pedem a suspensão da proposta e defendem a manutenção da gestão pública.
Uma audiência pública foi marcada para o dia 9 de abril, quando a população poderá participar diretamente do debate.
Enquanto isso, o projeto segue cercado de tensão: para alguns, uma tentativa de solução para o colapso da saúde; para outros, um caminho que pode repetir problemas já registrados em grandes centros do país.
No meio desse impasse, a decisão que vier da Câmara pode redefinir o futuro da saúde pública na Capital.
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