Campo Grande - terça-feira, 23 de junho de 2026
Morte de Vanessa trouxe à tona a luta travada pela família da criança na busca pela responsabilização do Estado
Michelly Perez - 19/02/2025 • 10:30
Fotos: reprodução-redes sociais
Desde a semana passada, após o brutal crime cometido contra Vanessa Ricarte, a ineficiência do Estado e do município em oferecer medidas de proteção para as vítimas de violência ficou ainda mais evidente. Contudo, em entrevista para a Revista A Foto, a advogada Janice Andrade, depois da audiência realizada ontem (18) em que discutiu a omissão do Poder Público, relembrou que o descaso não é recente e também se fez e segue presente no caso de Sophia O’Campo, só que, diferente da jornalista, a pequena não conseguiu deixar nenhum áudio.
As imagens da menina desacordada, horas antes da mãe procurar por atendimento médico na UPA Coronel Antonino no dia 26 de janeiro de 2023, são o claro indício de que ela teve o sofrimento silenciado. Com apenas 2 anos e 7 meses, Sophia não conseguiu gravar áudios para relatar os maus tratos, nem muito menos avisar amigos sobre a violência sofrida.
Por outro lado, ela foi levada 31 vezes para a UPA, enquanto o pai buscava apoio no Conselho Tutelar, Delegacia Especializada de Proteção à Criança e Adolescente, Defensoria Pública, Ministério Público e na Justiça, mas o sistema (mais uma vez) falhou. Embora o Poder Público ainda não tenha reconhecido, tal e como aconteceu com Vanessa, após a repercussão insistente da mídia local e nacional.
Ontem (18), foi realizada a audiência que busca a responsabilização do Estado (tanto Governo, quanto município) sobre as falhas no atendido à pequena. Em dezembro de 2024, após diversas prorrogações do júri popular, a mãe Stephanie de Jesus da Silva e o padrasto Christian Campoçano Leitheim foram condenados a penas somadas de 52 anos de prisão em regime fechado pelo assassinato e abuso sexual.
“A equipe da DPCA foi ouvida e comprovamos a ineficiência do Estado, a falta de conhecimento sobre a legislação de Proteção da Criança e do Adolescente. Tivemos que ouvir da delegada titular, que mesmo com todos os boletins de ocorrência e a criança com uma perna quebrada. O Estado poderia puxar a responsabilidade para si, mas a criança iria para um abrigo, o que, segundo ela, seria muito pior”, explicou a advogada Janice.
No entanto, a realidade é de que a falta de medidas eficientes, que acabou eternizada em um atestado de óbito, confirma que a menina morreu por um trauma raquimedular na nuca, hemorragia e acúmulo de sangue entre os pulmões e a parede torácica, além de vestígios de agressões anteriores, hematomas e ruptura cicatrizada do hímen, indicando a violência sexual há pelo menos 20 dias e uma vida de agressões.
A revolta e a falta de medidas já foram alvo até de um abaixo assinado, que já conta com mais de 18.144 assinaturas. Criado pelo MCRIA – Fórum Permanente pela Vida das Mulheres e Crianças de Mato Grosso do Sul, o documento cita ainda que os órgãos da rede de proteção foram questionados sobre os protocolos de atendimentos, mas poucos responderam, e os que o fizeram não identificaram falhas, mesmo diante da evidente negligência.
“Enquanto cada órgão da rede de proteção não cumprir suas obrigações, não instituir protocolos claros de atendimento e encaminhamento, e não preparar adequadamente seus profissionais, será inútil julgar apenas os que maltratam e matam diretamente. É necessário que cada autoridade cumpra suas responsabilidades, não se omita e aja em tempo hábil para salvar as crianças em situação de perigo. E, se não o fizerem, que sejam responsabilizados e punidos por sua negligência”, reforça o Fórum Permanente.
Tags: Caso Sophia, Justiça, Omissão,