ícone whatsapp

Capa • As melhores do mês

Campo Grande - quarta-feira, 1 de julho de 2026

Estiagem coloca 23 espécies de peixes do Pantanal em risco

Além de afetar a cadeia natural, problema de estende pelas questões sociais e alimentares dos ribeirinhos

Michelly Perez - 24/05/2024 • 14:40

Dourado, Pintado, Pacu, Cachara, Piapara, Surubim e  Piau estão entre atingidos/Foto: Reprodução

O nível dos rios em diferentes municípios do Pantanal de Mato Grosso do Sul segue caindo dia, após dia. A Revista A Foto já mostrou que a navegação deve parar nas próximas semanas, impactando diretamente na economia regional. Contudo, os prejuízos devem ser ainda maiores na fauna, uma vez que, pelo menos, 23 espécies de peixes migratórios dependem das inundações para a sua reprodução e desenvolvimento.

Em entrevista à Revista A Foto, Douglas Alves Lopes, biólogo, mestre em Biologia Animal e doutorando em Biodiversidade, especialista em peixes de água doce da América do Sul, confirma que ciclos muito longos de secas acentuadas podem reduzir as populações dos peixes migratórios, como o  Dourado, Pintado, Pacu, Cachara, Piapara, Surubim e  Piau, afetando os estoques pesqueiros.

“No Pantanal temos 23 espécies que são de hábito migrador e essas espécies dependem diretamente do processo de inundação e subida dos rios para realizar a migração e se recuperar desse processo nos adultos e para crescimento e desenvolvimento nas espécies juvenis”, cita.

Áreas que deveriam estar alagadas, seguem secas no Pantanal- MS (Foto: Divulgação- IHP)

Confira lista das espécies afetadas: 

Piraputanga, Piapara, Piau de 3 pintas, Piauçu, Piava, Pacu peva/Pacu prata, Pacu, Sairu, Curimba / curimbatá, Peixe cachorro, Dourado, Ximburé, Jurupoca, Armal, Jau, Mandi, Barbado, Pintado, Cachara, Abotoado, Cascudo preto, Surubim e Surubim-do-Iguaçu.

Segundo a Marinha, o nível da base de Ladário está hoje (24), em 1,44m, diferente dos 3,41m registrados em maio do ano passado. Estiagem também foi registrada na base de Forte Coimbra com 0,14 m, valor muito inferior aos 2,85m do ano passado. Em Porto Murtinho, atualmente o nível do rio está em 2,18m, no ano passado, a régua estava em 4,60m.

“As projeções indicam que a mínima anual pode ocorrer em outubro com cota negativa. Se chover dentro da média, teremos um cenário semelhante ao ano de 2020. Caso as chuvas fiquem abaixo da normalidade, o cenário será mais grave e similar aos anos em que enfrentamos as piores secas da história do Pantanal: 1964, 1971 e 2021”, alerta o pesquisador do Serviço Geológico do Brasil, Marcus Suassuna.

Foto: Diego Viana/IHP

Tais reduções, conforme o biólogo Douglas causam impactos em cadeia no desenvolvimento e reprodução de peixes, afetando a todo o sistema Pantaneiro, que é bastante dependente dessa integração entre o rio e planície de inundação. Com isso, Onça-pintada, o  Jacaré do Pantanal e os Tuiuiús que são animais com apelo de conservação, também devem sentir os efeitos da estiagem.

“Grande parte dos recursos alimentares da produtividade como chamamos no Pantanal são decorrentes dos recursos que entram no ambiente aquático quando há inundação. Então por exemplo, quando a bacia está seca desenvolve vegetação, que não é adaptada para a inundação, e quando vem o período de cheia essa vegetação morre, se decompõe e fica disponível no ambiente aquático. As algas se aproveitam da matéria decomposta, plantas aquáticas que são aproveitadas para pequenos herbívoros, e os peixes que sustentam as cadeias. Então se temos problemas de produtividade na base, os animais que dependem dessa cadeia são afetados”, explica.

Cheias têm valor cultural

A estiagem também traz uma série de problemas sócio ambientais, a redução de população de peixes impacta na pesca que é uma atividade de grande importância tanto comercial, quanto esportiva. O problema que se inicia como questão climáticas, passa pela biodiversidade e afeta as condições humanas sociais e econômicas. Prejudica ainda a segurança alimentar de populações ribeirinhas locais.

“Culturalmente, a cheia é importante para os pescadores, coletores de isca e para a continuidade da pesca profissional e esportiva. Quando forte ou atípica, pode até trazer prejuízos para a pecuária, mas o pantaneiro sabe que ela também é importante para a renovação das pastagens e para provisão de água aos seus rebanhos. Portanto, podemos dizer que a cheia também tem valor cultural para o Pantanal”, informou a Dra. em Ecologia e bióloga no IHP (Instituto Homem Pantaneiro), Grasiela Porfirio.

(Foto: Divulgação- IHP)

Questionada sobre quanto tempo o Pantanal de Mato Grosso do Sul pode demorar para se recuperar deste período de estiagem severa, a especialista cita que embora não haja uma determinação, os impactos serão sentidos a longo prazo.

“Isso depende da duração e severidade da estiagem. Embora o Pantanal tenha demonstrado uma boa capacidade de resiliência, as atuais mudanças do clima podem ser decisivas para a recuperação ou reestabelecimento do que conhecemos até então como “padrão” de estiagem e de cheia no Pantanal”, finaliza.

Tags: Pantanal, peixes, Seca,