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Campo Grande - quarta-feira, 24 de junho de 2026

Nova Lima: fazendeiros e obras da prefeitura afogam Rio Botas em areia

Sedimentos da região do bairro Nova lima apagam um dos principais canais de escoamento da Capital 

Marcos Maluf - 02/07/2024 • 10:00

Areeiro no rio Botas/Revista A Foto

A imagem em destaque é de um areeiro localizado nas margens do  Rio Botas, e toda essa mancha branca nas laterais é areia vinda dos bairros e da erosão causada pelo uso irresponsável de área ciliar, você pode acompanhar a história clicando no vídeo abaixo, ou se preferir pode ler o texto, eu recomendo que assista, ele está cheio de imagens exclusivas que você talvez nunca tenha presenciado.

A região do bairro Nova Lima enfrenta há anos problemas com as ruas carregadas por areia, mesmo em partes onde o asfalto já chegou, pois é daí que vem um do maiores problemas, a enxurrada leva toda a areia para dentro dos bueiros do sistema de drenagem de águas fluviais da região. A Revista A Foto após receber diversas denúncias e queixas dos moradores, decidiu entender melhor o problema e os seus consequentes desdobramentos.

Além de pouca profundidade, o caminho está obstruído por grandes árvores caídas com a erosão – Foto: Silas Lima

Recentemente, a equipe de reportagem desembarcou na ponte que dá acesso ao Rio Botas, tido como uma das principais vias de escoamento das águas do sistema de drenagem, visto que pequenos córregos da região desaguam nele. Rio abaixo foi possível identificar que o fluxo de água estava muito inferior ao esperado.

Em alguns pontos a existência de mata ciliar é zero. Grandes paredões de areia – Silas Lima

Não demorou muito, para começar a ver o cenário de destruição e desmoronamento. Em alguns pontos pequenas cachoeiras dividem espaço com paredes de areia, a falta de mata ciliar e pegadas de animais indicam o descaso dos fazendeiros com as APP ‘s (Áreas de Preservação Permanentes).

Vários pontos em que o gado desce até a margem para beber água – Foto: Silas Lima

 

 A navegação seguiu até a Fazenda Santa Isabel, onde funciona uma usina hidrelétrica. Todo o percurso foi acompanhado pelo gerente da propriedade, João Souza, 62 anos, que trabalha como gerente desde 2005. Ele explica que a situação piorou nos últimos quatro anos.
 “A usina teve uma queda bem acentuada na produção de energia, realmente o fluxo de água do rio está muito baixo”, explica.

Sem alternativas, o proprietário da usina hidrelétrica instalou uma draga de onde saem diariamente, pelo menos, 6 carretas lotadas e mais 5 caminhões trucks.

“Tivemos que montar o areeiro dentro da fazenda para poder ir limpando o rio e não entupir o canal da usina. Está saindo uma média de 5-6 carretas fora os caminhões Truck. É areia todo dia e o riozinho está entupindo, se continuar assim, não dura mais três anos”, conta preocupado.

Barragem da usina e no canto inferior esquerdo a draga – Foto: Silas Lima

A extração de areia se dá por meio de permuta com uma empresa, que utiliza a areia para a construção civil. Contudo, João Souza cita que além da areia, o rio acumula o lixo levado dos bairros da cidade.

“Estou na fazenda há quase 20 anos e desde quando nós reformamos a usina a água vinha limpinha, mas de uns tempos pra cá, tem muita areia. Quando chove a coisa fica feia, porque desce a ‘lixaiada’ da cidade nele e para bem na barragem, e desce areia com força, garrafa, sacolas de lixo, muita tranqueira da cidade desce e para na comporta. Até cadáver nós já achamos aqui”, pontua.

Lixo vindo dos bairros ocupam as margens do rio – Foto: Silas Lima

O cadáver mencionado pelo gerente da fazenda foi localizado no dia 4 de dezembro de 2023. Questionada pela reportagem da Revista A Foto, a Polícia Civil informou que o caso foi registrado como ‘Morte a Esclarecer’, pela 3ªDP de Campo Grande, mas o inquérito policial para apurar o caso foi instaurado pela delegacia de Jaraguari, presidido pelo delegado Danilo Mansur.

“A vítima foi encontrada em avançado estado de decomposição. Foi realizado exame pericial de pesquisa e confronto necropapiloscópico, no entanto, o cadáver não foi identificado. O inquérito policial foi relatado em maio deste ano e encaminhado ao Poder Judiciário”, atualizou a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul.

Autoridades policiais e perícia foram acionadas – Foto: arquivo pessoal da fazenda Santa Izabel

Bairro acumula contratos inacabados

Segundo o Portal da Transparência de Campo Grande, o Bairro Nova Lima possui cinco frentes de obras, das quais, apenas uma foi 100% concluída.

O primeiro contrato, firmado no dia 26 de setembro de 2016, inclui os serviços de manejo de águas pluviais, pavimentação, acessibilidade e sinalização viária no valor de R$ 22.911.115,96.

O segundo contrato,  (98% concluído), firmado em 18 de maio de 2020, no valor de R$ 20.528.809,11, através do programa PAC,  previa a conclusão em 27 meses dos serviços de pavimentação e qualificação urbana.

O terceiro, assinado em abril de 2022, denominado etapa C- lote 1 com recursos de R$ 20.516.321,02 teve apenas (30%) dos trabalhos de pavimentação concluídos.

Placa da obra que deu início em abril de 2022 – Foto: Marcos Maluf

O quarto projeto, etapa C-lote 2 está com 98% dos serviços de reforma de  pavimentação finalizados, no valor de R$ 20.397.365,70 e também foi firmado em abril de 2022.

O último é o que está mais atrasado, contando apenas com 6% de execução. Também assinado em abril de 2022 e com previsão de entrega em oito meses. O contrato de R$ 11.455.706,87 prevê serviços de recuperação de asfalto que estão longe de serem finalizados.

Enquanto isso, para quem vive na região do Nova Lima os dias de chuva trazem consigo a preocupação por inundações e o lamaçal que se forma nas vias de principal acesso da região, o número de bueiros no bairro é pequeno, pois algumas ruas foram asfaltadas em gestões passadas sem o sistema de drenagem.

Com o receio de ter a casa invadida pela forte enxurrada, a dona Mujacir Alves, 67 anos, que reside desde 1985 na Rua Francisco Pereira Coutinho adaptou a casa com a construção de uma mureta para impedir que a água entre na sua residência.

Mujacir Alves – Foto: Marcos Maluf

“A enxurrada vem muito alta, tive que fazer essa mureta porque a água invadia a minha cozinha. A gente pensou que com asfalto ia resolver, mas até agora não temos nem esgoto, os bueiros estão entupidos, nem sei se vai chegar o esgoto. Quanto tá tudo sujo os bueiros, que nós mesmos os vizinhos temos que limpar, prefeitura só vem quando todo mundo se junta e chama , é uma tristeza isso aqui pra nós “, lamenta.

Mureta construída para evitar a invasão da água da chuva – Foto: Marcos Maluf

Outro morador da região também confirma o desespero e os prejuízos provocados pela falta de drenagem no bairro. Segundo André Luiz, 39, o problema se arrasta há anos e o município não estaria dando as seções necessárias.

“Aqui quando chove não passa ônibus, caminhão, fica tudo alagado, sem condição alguma de trafegar é muito complicado, já vem se repetindo há muito tempo e a gente já não sabe o que fazer. Quando chove muito a prefeitura vem, junta a areia nos cantos e vai embora”, cita.

A equipe de reportagem constatou que no bairro, as poucas ruas contempladas com asfalto, acumulam areia que desce das ruas paralelas ainda não pavimentadas. Os poucos bueiros existentes estão obstruídos com areia e lixo.

Alguns bueiros totalmente entupidos

Piscinões sofrem a falta de manutenção

Em entrevista à Revista A Foto, Antônio Carlos Silva Sampaio, engenheiro civil e especializado em engenharia ambiental e mestre em tecnologia ambiental pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) explica que é necessária uma manutenção periódica nos piscinões, o que na prática, não acontece. Ele também destaca que em casos onde o bairro não é totalmente asfaltado, o piscinão tem uma espécie de área primária, justamente para receber toda a areia vinda com as águas das chuvas, área essa que deveria passar por uma limpeza de maneira regular para evitar a fuga dos sedimentos.

Antônio Carlos Silva Sampaio – Foto: Marcos Maluf

“Periodicamente é pra ser feita essa remoção. Às vezes a prefeitura não tem um acompanhamento mais preciso de olhar para isso com frequência, então na verdade está faltando um gerenciamento sobre esses aspectos em todas as bacias da prefeitura”, lamenta.

Questionado sobre as diferentes formas com que os piscinões são desenvolvidos, como por exemplo, as bordas do piscinão da avenida Mato Grosso são de pedra, diferente do bairro Nova Lima onde as bordas são no solo cru, o especialista pontua que cada caso é analisado de forma individual e dependendo da análise se faz o projeto adequado para área, que não necessariamente estaria errado.

“Tem que ver caso a caso e a solução varia muito. (O piscinão) é a mais barata… E a solução funciona muito bem. Agora  o tipo de material usado vai variar dependendo de alguns fatores como o solo, a profundidade e a capacidade de água”, cita.

Questionado sobre como seria a saída de água dos piscinões, ele explica que ela deve ser guiada de forma em que a água saia em um fluxo tranquilo e direcionado, não necessariamente para dentro de um córrego, mas de maneira branda para que não haja erosão. Infelizmente o que se vê é um cenário contrário.

Segundo o especialista, a presença de água pode ser do lençol freático.

A falta de acompanhamento constante pode trazer vários prejuízos, dentre eles o rompimento das barragens que servem como um grande freio, para a água das enxurradas.

“Há um tempo atrás rompeu uma na Villa Nascer foi a primeira construída e nunca deram manutenção, aí ela acabou rompendo a enxurrada invadiu casas. E quando isso rompe, o que tiver de barranco vai levando. Pelas fotos vemos que se formou as voçorocas, a vala, o buraco que ela cria e leva a terra que atinge o lençol freático e é mais difícil de você tentar recuperar… Porque o lençol freático… É como se fosse um rio subterrâneo e quando atingiu ali, o melhor que se faz hoje é deixar naturalmente ela se recuperar”, explica.

A reportagem da Revista A Foto questionou a Prefeitura de Campo Grande sobre as obras do Nova Lima, limpeza dos bueiros e piscinões, mas não obteve retorno.

Obras começam, param, projeto encima de projeto, administração entra e sai e o que falta é planejamento. Em plena era onde a sustentabilidade chega para revolucionar, o homem mostra que está bem longe de respeitar a natureza.

Tags: Drenagem, Meio ambiente, urbanização,