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Campo Grande - quinta-feira, 25 de junho de 2026

Cracolândia se espalha por bairros pacatos e reportagem registra venda de drogas à luz do dia

Os pontos que antes eram em regiões pontuais, agora marcam presença em dezenas de novos bairros

Marcos Maluf e Michelly Perez - 06/08/2024 • 06:00

Usuários na calçada do que antes era um comércio em frente a antiga rodoviária/foto: Marcos Maluf

Inaugurar a pedra fundamental de algum projeto ou obra se tornou em outras palavras o ponto inicial e a marca registrada da atual administração municipal, que não significa que terá um término, visto que a grande maioria dos lançamentos são só eventos, diga-se de passagem.

A pedra que ninguém quer inaugurar está tomando conta das ruas de Campo Grande. Os moradores mais antigos de já devem ter percebido uma movimentação curiosa nas Cracolândias da cidade. Usuários e traficantes que antes se escondiam em becos, hoje fazem o uso e a venda de substâncias  à luz do dia, como se não houvesse lei. Bastam segundos de negociação, vendeu, usou!

Traficante negociando cocaína à luz do dia nas proximidades da antiga rodoviária. Após a compra, na foto da direita, o indivíduo faz o uso imediato/fotos: Marcos Maluf

 

Ainda em plena luz do dia, na Orla Ferroviária, o jovem de boné faz o uso em seu ‘cachimbo’ artesanal/foto: Marcos Maluf

 

O patrulhamento da polícia militar e da guarda civil metropolitana tem sido constante, segundo moradores destas regiões. Operações como a antiga “Laburu”, que era rotineira na época em que o prédio da antiga rodoviária não estava em obra, fizeram a diferença. Mas o que gera paz momentânea gera outro problema.

Na foto da esquerda antiga operação ‘Laburu’, da direita patrulhamento ostensivo/fotos: Marcos Maluf

Diante do cenário de pressão e sem alternativas, eles começam a se espalhar pela cidade. Com isso, outros bairros começaram a registrar situações parecidas com as denominadas “áreas de usuários”, dentre elas estão: Jardim Imá, Santo Amaro, Amambaí, Cabreúva (região da Orla Ferroviária).

As esquinas ficam tomadas de móveis improvisados/foto: Silas Lima

O problema é complexo e causa prejuízos milionários todos os meses, afinal isso impacta diretamente na econômica, deixando de gerar empregos em comércios fechados, regiões com desvalorização imobiliária declinante e sem contar que a grande maioria dos proprietários do imóveis abandonados não pagam seus IPTU.

Imóvel servindo de moradia improvisada para usuários de drogas na Vila Bandeirantes/foto: Marcos Maluf

Quem conhece na pele os prejuízos e os desafios de conviver e trabalhar no antigo  Terminal Heitor Eduardo Laburu, conhecido popularmente como a Antiga Rodoviária, sabe que o problema é antigo e não se resume à saúde pública e à segurança pública. Rosane Nely é comerciante e presidente da associação de moradores do Bairro Amambai,  ela destaca a falta de políticas públicas eficientes para o tratamento dos dependentes químicos e a necessidade de leis menos brandas.

 

Questionada sobre os prejuízos que o comércio local enfrenta, ela cita que os valores são incalculáveis, ainda mais quando se leva em conta a rede hoteleira.

“Os prejuízos são muito grandes, a maioria dos empresários não investem em suas lojas, com isso muitos comércios e lojas fecharam. Até para alugar um imóvel ali é difícil, temos imóveis fechados há 3 anos, além disso, temos o impacto na rede hoteleira da região, onde temos 70% da rede hoteleira naquela região, mas as pessoas têm resistência em ir para lá por conta desse problema de dependentes químicos naquela região”, lamenta.

Salas e corredores que antes movimentavam a economia, são só baú de lembranças/foto: Marcos Maluf

 

A empresária, Heloisa Cury, de 65 anos, é uma das comerciantes que se refutam em deixar a antiga rodoviária. Ela que inclusive já teve uma sala comercial invadida por moradores em situação de rua, relembra que a sua loja já teve os fios roubados, o telhado e portas quebradas, além dos produtos que comercializa. Mesmo assim, ela conta que a situação melhorou após a migração dessas pessoas para outras regiões da cidade.

“Nosso entorno agora está ótimo, hoje já podemos estacionar dos dois lados da rua. Eles estão na região da Nhanhá, mas isto é mundial, vão se espalhando e se movimentam.  A nossa esperança é de que a prefeitura de Campo Grande termine a obra e leve as secretarias públicas pra lá, por que, muitos empresários estão esperando o fim dessa obra para comprar as suas salas e investir na região”, conta.

Comércio volta a respirar ainda tímido e muito longe de ser o que era/foto: Marcos Maluf

A reportagem da Revista A Foto acompanhou em diferentes bairros de Campo Grande que mesmo depois de se espalharem pela cidade, eles continuam usando o mesmo sistema, se aglomeram em grupos para garantir sua própria segurança e de alguma forma compartilhar o uso de substâncias. Dentro deste pacote, o que sustenta o vício são roubos e furtos realizados no perímetro de cada região. Mas isso nem sempre é o suficiente, e é aí que entra a prostituição.

Casa improvisada na calçada do bairro Amambai/foto: Marcos Maluf

 

Ainda falando de prejuízo, os imóveis presentes nas regiões, não são um atrativo financeiro em negociações, pois o cenário de abandono e a invasão causa medo e apreensão. Exemplo disso é uma casa localizada na Avenida das Bandeiras, que após ter sido invadida pelos moradores em situação de rua enquanto estava com uma placa de vende-se, precisou ser demolida, já que o proprietário não encontrou outra alternativa.

Em entrevista, Eurico Clemente, 74 anos, empresário que tem uma autopeças ao lado de onde existia a casa contou para a equipe de reportagem que até hoje, o proprietário do terreno não consegue vender o imóvel. Segundo ele, desde que a região foi tomada pelos moradores em situação de rua e usuários, as casas que seguem com placas de aluga-se ou vende-se ou foram depenadas ou invadidas.

“O dono da casa perdeu tudo, ele estava pedindo R$ 350 mil mas não conseguiu vender a casa, hoje tá só o terreno. Aqui não tem jeito, as casas que antes custavam R$ 50 mil, hoje, valem nem R$ 10 mil. A polícia não consegue resolver, não podem prender, eu acho que isso aqui não tem mais solução”, lamenta.

Usuários se abrigam em imóveis desocupados/foto: Silas Lima

 

Para a Revista A Foto, a Polícia Militar confirmou que a migração destes moradores para outras regiões é comum. “Acaba sendo uma consequência das ações dos órgãos de segurança e da prefeitura. Eles se mudam, adotam locais mais precários. Os locais que sofrem reformas, reestruturações, acabam se revitalizando, e eles migram para outras áreas”, destacou.

Além disso, a corporação destaca que desde o início do ano, entre roubos e furtos naquela região, foram registradas 21 ocorrências e também pontuam que as obras, ajudaram a reduzir o fluxo e a criminalidade nas proximidades da Antiga Rodoviária.

Patrulhamento ostensivo/foto: Marcos Maluf

 

“A operação saturação, junto com outras ações, ocorrem de forma mensal, reforçando o policiamento em áreas de maior incidência de ocorrências. O início das obras da prefeitura auxiliou a diminuir também o fluxo na região, mas o 1º Batalhão segue trabalhando e monitorando a região, bem como todo o Centro da cidade, para melhor atender”, destaca.

Em busca de entender como os pequenos compradores e usuários de drogas impactam no mercado do tráfico, a reportagem da Revista A Foto, conversou com o DRACCO (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado), para entender se entre estes dois grupos, existe alguma ligação. Segundo a delegada Ana Cláudia Medina, trata-se de um efeito colateral do tráfico organizado, mas que não estão diretamente ligados.

 

Analisando todo contexto, fica bem claro que não se trata somente de policiamento. A população clama por um plano administrativo e providências eficazes que realmente resolvam e trate cada caso como se deve e não espantar como quem espanta pragas em lavouras.

Para se ter uma ideia, nem contrato de manutenção semafórica Campo Grande tem neste momento. Sem a empresa responsável, a Secretaria de Obras tem apenas quatro servidores para atender a manutenção de todos os semáforos da cidade.

A licitação no valor aproximado de 24 milhões de reais, foi suspensa em maio deste ano e ainda não tem prazo para finalizar. Assim cada fio que é roubado prejudica um semáforo, vai deixar ele desligado por dias e dias.

Já sobre as cracolândias, que ganharam até faixas “comemorativas” de protesto da população, Campo Grande não tem nenhum plano efetivo de combate ou mesmo para amenizar o contínuo uso de drogas de sua população e os problemas sociais e econômicos derivados.

Faixa de protesto na entrada do bairro Vila Nhanhá/foto: Silas Lima

Com dois anos à frente da Prefeitura de Campo Grande, a atual administração não conseguiu nenhuma ação efetiva para melhorar a situação, seja das cracolândias ou o resultado delas.

Em nota , a Secretaria Municipal de Assistência Social de Campo Grande, informou que realiza ações para conectar esses indivíduos aos seus direitos, incluindo saúde mental. Entre os serviços oferecidos estão as Casas de Passagem Resgate e São Francisco de Assis, que fornecem acolhimento e proteção social. Além disso, a SAS faz encaminhamentos para Comunidades Terapêuticas para aqueles que desejam tratamento para a dependência química.

A Subsecretaria de Defesa dos Direitos Humanos oferece 315 vagas sociais, distribuídas em 11 Comunidades Terapêuticas, sendo elas: Desafio Jovem Peniel, Associação de Reabilitação Parceiros da Vida (Esquadrão da Vida), Centro de Apoio a dependentes em Recuperação Integrada (CADRI), Associação de Reeducação Social e Reintegração no Trabalho (Projeto Jaboque), Associação Nova Criatura, Comunidade Terapêutica Antônio Pio da Silva (COMTAPS), Centro de Reabilitação e Tratamento para Dependentes Químicos Alcoolistas e Familiares (CERTA), Instituto Mulheres que Transformam, Projeto Simão, Comunidade Cristã Caminho da Recuperação e Comunidade Terapêutica Nova Vida.

O programa atinge o objetivo de reinserir os indivíduos na sociedade com a efetivação de políticas públicas como educação, qualificação profissional e empregabilidade. Os acolhidos recebem o acompanhamento biopsicossocial; tratamento terapêutico e qualificação profissional, oferecido em parceria com a Fundação Social do Trabalho de Campo Grande (Funsat) e Sistema S; e apoio da Secretaria Municipal de Educação (Semed) na oferta de turmas do EJA (Educação de Jovens e Adultos).

Atualmente, estão sendo ofertadas por meio da Coordenadoria de Proteção à População em Situação de Rua e Políticas sobre Drogas (Coprad), 39 vagas disponíveis, sendo que estão em atendimento, 276 assistidos, lembrando que as vagas são rotativas.

A ação dá continuidade às atividades do Programa de Ação Integrada e Continuada (PAIC), desenvolvido pela SDHU, que proporciona a efetivação das políticas públicas voltadas para a população em situação de rua, desde março de 2018, baseado no Decreto 7.053 do Comitê POP Rua, da Coordenadoria de Proteção a População de Rua e Políticas sobre Drogas (Coprad).

 

Tags: Capital, Dependentes químicos, segurança,