Campo Grande - terça-feira, 23 de junho de 2026
Especialista explica por que o corpo "cobra a conta" após a folia e alerta para os perigos da automedicação
Michelly Perez - 18/02/2026 • 08:30
Foto: cottonbro studio
O Carnaval passou, mas para muitos foliões a festa deixou um rastro de dor de cabeça, enjoo e cansaço extremo. Após dias de consumo de bebidas alcoólicas, o corpo “cobra a conta” na Quarta-Feira de Cinzas. Para enfrentar esse período sem sustos, é preciso entender que a ressaca é uma resposta fisiológica do organismo a substâncias tóxicas.
Segundo Denise Basílio, coordenadora do curso de Farmácia da Estácio, a ressaca é o resultado dos efeitos do etanol e de seus metabólitos no sistema. Mesmo quando o nível de álcool no sangue diminui, o corpo continua lidando com alterações inflamatórias e metabólicas que geram o mal-estar geral.
O principal culpado pelo mal-estar é o acetaldeído. Essa substância é formada no fígado durante o processo de quebra do álcool.
“O etanol é metabolizado resultando na formação de acetaldeído, um composto altamente reativo e tóxico”, explica Denise. É ele o responsável pelas náuseas, pela cefaleia (dor de cabeça) e por aquele rubor no rosto que muitos sentem após beber.
Além disso, o álcool ativa processos inflamatórios no sistema, o que explica a sensibilidade exagerada à luz e ao som, além das dores no corpo que fazem qualquer barulho parecer um trovão para quem está de ressaca.
Um dos mecanismos mais conhecidos da ressaca é a desidratação. O álcool inibe o hormônio antidiurético, fazendo com que o corpo perca muito mais líquido e eletrólitos do que o normal. O resultado direto disso é a boca seca, a tontura e a fraqueza.
Já o enjoo e a queimação ocorrem porque o álcool irrita diretamente a mucosa do estômago e aumenta a secreção ácida. Outro ponto crítico é o sono: embora o álcool ajude a “apagar“, ele destrói a qualidade do sono REM — a fase essencial para o descanso do cérebro. Por isso, mesmo dormindo muitas horas, o folião acorda exausto e com dificuldade de concentração.
Se a ressaca já se instalou, não adianta procurar soluções milagrosas. A palavra de ordem é suporte.
“A recuperação baseia-se em medidas de hidratação adequada, de preferência com água e soluções eletrolíticas (como água de coco ou isotônicos)”, orienta a especialista.
A alimentação deve ser leve e rica em carboidratos para repor a energia, evitando comidas gordurosas que sobrecarreguem ainda mais o fígado. O repouso em ambiente tranquilo também é fundamental para que o metabolismo volte ao normal.
Na pressa de se livrar da dor de cabeça, muitos recorrem à farmácia caseira, o que pode ser perigoso. Denise faz um alerta importante sobre o uso do paracetamol:
“Seu uso após a ingestão de álcool aumenta o risco de danos ao fígado, que já está sobrecarregado”.
Anti-inflamatórios comuns também devem ser usados com cautela, pois podem agravar a irritação no estômago e trazer riscos aos rins. Já medicamentos para ansiedade ou indutores de sono (benzodiazepínicos) são terminantemente proibidos em associação com o álcool, devido ao risco de depressão do sistema nervoso.
É importante saber diferenciar uma ressaca comum de algo mais sério. A recomendação médica é buscar atendimento de urgência caso surjam sintomas como:
Vômitos persistentes que impedem a hidratação;
Confusão mental ou desorientação;
Dor abdominal intensa;
Pele ou olhos amarelados (icterícia);
Convulsões.
Para as próximas festas, a dica de ouro da especialista permanece a mesma: nunca beber de jejum, intercalar cada copo de álcool com um de água e respeitar os limites do próprio corpo.