Campo Grande - terça-feira, 23 de junho de 2026
Mãe, educadora e pesquisadora, ela enfrentou desafios, quebrou barreiras e hoje ajuda a levar ao país uma vacina inédita
Michelly Perez - 27/03/2026 • 11:08
Foto: José Felipe Batista/ Butantan
Em um país marcado por epidemias de dengue e pela luta diária de quem depende da saúde pública, uma história se destaca como símbolo de resistência, propósito e esperança. A de Neuza Maria Frazatti, pesquisadora do Instituto Butantan, que dedicou mais de quatro décadas à ciência até ajudar a liderar o desenvolvimento de uma vacina brasileira contra a doença.
Muito antes dos laboratórios e das descobertas científicas, Neuza já carregava outra missão: ensinar. Filha de uma família de educadores, começou a carreira como professora, alfabetizando jovens e adultos. Mas havia um desejo maior pulsando — o de alcançar ainda mais vidas.
Foi assim que, em 1978, entrou no Butantan como voluntária. Quatro anos depois, já era pesquisadora. E nunca mais saiu.
Ao longo de sua trajetória, conciliou ciência, maternidade e desafios em um ambiente ainda marcado por desigualdades. Mãe de dois filhos, Neuza construiu sua carreira sem abrir mão da sensibilidade de quem entende que, por trás de cada pesquisa, existem pessoas reais — famílias inteiras que esperam por uma solução.
E foi justamente pensando nessas famílias que ela enfrentou um dos maiores desafios da ciência brasileira: desenvolver uma vacina contra a dengue.
Com o avanço da dengue no Brasil, especialmente a partir de 2010, o trabalho no laboratório virou uma verdadeira missão. Dias, noites, fins de semana — tudo passou a girar em torno de um objetivo: encontrar uma forma eficaz de proteger a população.
“Não existia sábado, domingo ou feriado”, relembra a pesquisadora.
Foram anos de testes, erros e recomeços. Mais de 270 experimentos e cerca de 50 tentativas até chegar à fórmula ideal. O desafio era enorme: criar uma vacina capaz de proteger contra os quatro tipos do vírus da dengue.
Mas a persistência venceu.
Hoje, o imunizante desenvolvido com participação direta de Neuza apresenta cerca de 80% de eficácia e já está em fase avançada de estudos, com aplicação em milhares de voluntários pelo país. Em algumas cidades brasileiras, a vacina já começa a chegar como realidade.
Além da pesquisa, Neuza também ajudou a revolucionar a forma como vacinas são produzidas no Brasil, implementando tecnologias que reduziram custos e tornaram os processos mais eficientes e éticos, com menor uso de animais.
Mas, para ela, o maior legado vai além dos resultados científicos.
É o impacto humano.
No mural de seu laboratório, uma foto guarda um momento simbólico: o primeiro voluntário a receber a vacina. Um lembrete de que cada avanço carrega histórias, medos e esperanças.
Reconhecida internacionalmente, premiada e respeitada, Neuza ainda prefere ser chamada de professora. Para ela, ensinar e fazer ciência caminham juntos.
“Todos somos iguais. Cada pessoa tem um papel importante no resultado final”, defende.
Em um cenário onde tantas notícias falam de crises, a trajetória de Neuza Frazatti surge como um respiro — uma prova de que a ciência brasileira resiste, avança e salva vidas.
Sua história não é apenas sobre uma vacina.
É sobre coragem, dedicação e a certeza de que, mesmo diante das dificuldades, é possível transformar conhecimento em cuidado — e pesquisa em esperança.
Tags: Comunidade, Dengue, Esperança,