Campo Grande - terça-feira, 23 de junho de 2026
Prestes a inaugurar a sua fábrica, ele contrariou todos os julgamentos que recebeu
Michelly Perez - 02/07/2024 • 10:00
Elen Priscila/Foto: Marcos Maluf
Para mostrar que ‘lugar de mulher é onde ela quiser’, Elen Priscila da Silva, de 35 anos, decidiu empreender na fabricação de blocos de concreto. Após trabalhar como mascate, vendedora de lingeries e de açaí, há três anos ela constrói diariamente o seu sonho e relembra para a Revista A Foto, os maiores desafios já enfrentados.
“Comprei uma chácara e tinha uma ideia de construir de uma forma mais sustentável, para que eu mesma pudesse fazer. Foi então que achei o tijolo ecológico, comprei uma prensa de tijolo e produzi alguns. Aí surgiu a oportunidade de um cunhado meu, que já trabalhava com tijolo ecológico, me vender a máquina hidráulica, por que ele estava migrando para o bloco de concreto. Foi então que comecei a produzir tijolo ecológico para vender e enxerguei uma ideia de negócio”, relembra.
Com a produção a todo vapor, Elen não esperava que em três meses teria que enfrentar um novo desafio e readaptar a sua produção.
“Nos três primeiros meses eu peguei um pedido bem grande, produzi junto com minha mãe, 9 mil tijolos ecológicos para um cliente de Rio Negro. Mas o problema depois dessa venda foi continuar vendendo, porque não tem muita propaganda e aqui em Campo Grande as pessoas ainda têm receio, porque acham que não presta e o preço dele é maior. então meu cunhado, que já tinha migrado para o concreto, me orientou a fazer o teste também e eu continuei com o tijolo ecológico, mas comprei uma forma manual para tentar fazer o de concreto e se desse certo eu investiria”, conta.
O que parecia o fim para a empreendedora, na verdade era apenas o começo de um grande projeto. Logo no primeiro pedido de tijolos de concreto, ela se reencontrou no mercado. “No primeiro anúncio que fiz na internet já consegui uma venda bem grande e foi então que pensei que teria que melhorar. Fiquei três meses batendo bloco na forma manual, fabricando sozinha no quintal de casa, tinha uma betoneira de 150 litros e eu fazia o bloco de concreto na forminha, ela pesa em média 40kg, e eu fazia em média 100 blocos para conseguir entregar o pedido ao cliente e foi assim, que eu consegui e com o dinheiro que entrou eu comprei uma máquina de bloco de concreto”, comemora a menina dos blocos.
Aos poucos o quintal da casa de Elen que servia de oficina de produção e armazenamento dos blocos foi ficando pequeno e ela precisou alugar um terreno ao lado. “Comecei a ter os meus clientes, eles gostavam dos blocos, no início trabalhava em um lugar provisório para quebrar um galho e esse provisório durou dois anos, era um terreno alugado no lado da minha casa. Só que lá eu não conseguiria investir, fazer um banheiro e os funcionários para usar o banheiro iam para dentro da minha casa e foi então que pensei em sair de lá”, cita.
Com as economias e o esforço diário, ela conseguiu comprar dois terrenos no bairro Portal Caiobá, onde aos poucos foi comprando os materiais necessários para construir a sua casa e a tão sonhada fábrica de blocos. Inspirada na mãe, que também realiza trabalhos manuais, como reboco de paredes e instalação de pisos, ela decidiu ‘colocar a mão na massa’.
“Eu comprei as telhas, quando vi as tesouras do barracão fui lá comprei e as janela comprei usadas. Produzimos cerca de 8 mil blocos e construímos a casa, a princípio ia mudar no cru mesmo, só no concreto, mas eu consegui juntar um dinheiro e comprei 80 metros de piso e eu mesma meti a cara e instalei. Assentei as janelas, as portas, fiz a bancada do banheiro e da cozinha de concreto e mudamos”, conta a empresária, que já começou a construção do barracão da fábrica.
A produção que começou com 100 blocos por dia, com a compra de uma máquina poedeira passou para 450-500 blocos por dia e hoje, com o novo espaço acredita-se que consiga produzir mil blocos por dia. A rotina de trabalho durante estes últimos anos foi compartilhada com seguidores do Estado e do Brasil inteiro pelas redes sociais. Atualmente, o seu canal no Youtube conta com 1,28 mil inscritos e Elen destaca que os vídeos estão servindo para encorajar outras mulheres de todo o país.
“Tenho alguns seguidores fiéis que me procuram de diversas regiões do Brasil para pedir indicações de máquinas, tirar dúvidas sobre os traços de fazer blocos , converso com gente do Nordeste, da Bahia gente que quer começar e não sabe como. As pessoas me elogiam muito por ser mulher, mãe solo e estar trabalhando nesse ramo que é tão pesado, que é com o trabalho braçal”, conta.
Questionada sobre as maiores lembranças que ela tem de todo esse processo, ela relembra o dia em que pensou que um temporal levaria toda a estrutura do barracão da fábrica. Aquele momento foi a virada de chave que ela precisava para decidir dar um próximo passo, o de construir a sua fábrica com melhores condições de trabalho e principalmente, segurança.
“Foram dias de chuva, dias de sol, onde eu trabalhava a cobertura era com zinco e escora de eucalipto. Na última chuva forte que deu em Campo Grande eu achei que ia perder a cobertura, quando eu olhei as telhas estavam todas pra cima, eu subi na betoneira para tentar segurar as telhas. Foi um dia que eu pensei que ia perder tudo que eu tinha, mas eu ia tentar com todas as forças segurar a estrutura. Naquele dia eu prometi para Deus e para mim mesma, que se fosse da vontade de Deus eu ia conseguir sair de lá e ter um espaço só meu e uma coisa bem feita, do jeito que eu almejei”, comenta entre lágrimas.
Por ser mulher e trabalhar em um meio onde a maioria dos trabalhadores são homens, Elen destaca que o preconceito, mesmo que disfarçado de questionamentos, existe. Mas a sua maior resposta está nos resultados de todo o seu esforço.
“Tem um olhar torto, ou que duvidam que você consegue fazer, questionam se sou eu mesma quem faço. Estou com obras aqui em casa e o pedreiro perguntou se antes eu trabalhava sozinha e quando falei que sim, ele disse que não acreditava. Eu faço algumas coisas de serralheria, móveis e aprendi a soldar. Esta semana eu fiz um nicho para o banheiro e um serralheiro veio me perguntar se era eu quem tinha feito sem a ajuda de alguém, ou seja, duvidam da nossa capacidade só pelo fato de sermos mulheres, e eu chego a dizer que faço muitas coisas melhor que os homens”, pontua.
O apoio da família, sem dúvidas, foi um dos pilares que permitiram que Elen chegasse até aqui. Ela conta que mesmo em meio a todas as dificuldades, a sua mãe sempre foi o seu espelho. “todo mundo me apoiou, a princípio parece uma loucura ‘essa guria vai mexer com um trem pesado desses’, mas depois que as coisas começam a andar a confiança vai aumentando, inclusive minha mãe sempre mexeu com essas coisas de construção, ela sabe assentar piso, fazer reboco então está no sangue essa coisa de correr atrás e não ficar parada”, cita.

Nova Fábrica de blocos, prestes a ser inaugurada – Foto: Marcos Maluf
Consciente de que todas as etapas de sua vida a fizeram mais forte, Elen confirma que a chave para o sucesso está em ‘fazer acontecer’.
“Às vezes as coisas não saem no tempo que a gente espera. Na minha vida muitas deram errado, mas outras deram muito certo, então acredito que temos que persistir, não desistir dos nossos sonhos e trabalhar muito, não podemos esperar o sonho cair do céu”.

Casa feita de blocos que ela mesma fabricou – Foto: Marcos Maluf
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