Campo Grande - quarta-feira, 24 de junho de 2026
Obra da ponte sobre o Rio Paraguai avança e reforça expectativa de transformação econômica e turística
Michelly Perez - 23/06/2026 • 08:39
Foto: Annice Dias/divulgação
Uma ligação de milhares de quilômetros entre dois oceanos está cada vez mais próxima de se tornar realidade — e, com ela, cresce a sensação de que o mapa econômico e turístico de Mato Grosso do Sul pode estar prestes a mudar de forma definitiva.
Com a obra da ponte sobre o Rio Paraguai, que conecta Porto Murtinho (Brasil) a Carmelo Peralta (Paraguai), já cerca de 90% concluída, o Corredor Bioceânico de Capricórnio começa a deixar de ser promessa para se tornar um projeto em contagem regressiva. Antes mesmo da conexão terrestre completa, o impacto já é sentido em cidades da região, especialmente no turismo.
A chamada Rota Bioceânica vai ligar o Oceano Atlântico ao Pacífico por um trajeto rodoviário de aproximadamente 3,9 mil quilômetros, cruzando Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. A proposta é encurtar significativamente o tempo de transporte de cargas entre a América do Sul e mercados asiáticos, redesenhando rotas comerciais tradicionais.
Mas, enquanto o comércio global se prepara para a mudança, é o turismo que já começa a viver os primeiros efeitos dessa transformação.
Projeções do Governo de Mato Grosso do Sul indicam que o fluxo turístico pode crescer cerca de 30% no primeiro ano de operação do corredor, chegando a até 70% no segundo ano. Mesmo antes da conclusão total da obra, o movimento de visitantes e curiosos em direção à região já aumenta, impulsionado pela curiosidade em torno da ponte e da nova rota internacional.
Segundo a assessora especial de integração do Corredor Bioceânico na Semadesc, Danniele Paiva, o turismo é o setor que primeiro sente os reflexos da obra. Ela destaca que a mobilização dos municípios ao longo do trajeto já começa a criar uma nova dinâmica regional, que tende a se intensificar com a abertura completa da rota.
O diretor-presidente da Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul (Fundtur), Bruno Wendling, reforça que a tendência é de crescimento contínuo. Ele lembra que a abertura de novos acessos sempre redefine fluxos turísticos e econômicos, mas alerta que o impacto mais consistente deve ocorrer após a conclusão da ponte e a estruturação dos sistemas alfandegários.
Na prática, o corredor já começa a mudar a rotina de quem vive na região. Em Porto Murtinho, a turismóloga Annice Dias transformou o cenário em oportunidade e criou a primeira agência de turismo local voltada à Rota Bioceânica. Hoje, ela relata aumento na procura de visitantes brasileiros e paraguaios interessados em conhecer não apenas os destinos tradicionais, mas também o próprio canteiro de obras da ponte.
O movimento já impulsiona novas experiências turísticas, como passeios de barco pelo Rio Paraguai, cicloturismo, eventos de pesca e visitas guiadas que incluem até contemplação da estrutura da ponte em construção — um símbolo de uma rota que começa a ganhar vida antes mesmo de ser oficialmente inaugurada.
No comércio e nos negócios, a expectativa também é alta. A redução do tempo de transporte de cargas entre o Brasil e a Ásia — estimada em até duas semanas — é vista como um dos principais atrativos da nova rota. A perspectiva de integração logística global já desperta o interesse de empresas que estudam se instalar ou expandir operações na região.
O empresário Luiz Carlos Malacarne, do setor de distribuição de combustíveis em Jardim, é um dos que apostam no potencial da Bioceânica. Ele afirma que vem se preparando há dois anos com investimentos em infraestrutura, tecnologia e ampliação de frota, projetando crescimento de até 30% na demanda.
Com portos no Atlântico e no Pacífico conectados por terra, o corredor deve integrar estruturas no Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, abrindo novas possibilidades para o comércio internacional e para o turismo entre os países envolvidos.
Mais do que uma obra de infraestrutura, a Rota Bioceânica começa a se desenhar como uma nova fronteira de oportunidades — ainda em construção, mas já capaz de provocar mudanças visíveis no presente.
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