Campo Grande - terça-feira, 23 de junho de 2026
Obra inspirada em investigação real resgata mortes de 16 jovens e expõe bastidores nunca revelados ao público
Michelly Perez - 06/05/2026 • 09:06
Fotos: divulgação
Uma das histórias mais sombrias de Mato Grosso do Sul, marcada por medo, silêncio e violência, volta à tona dez anos depois — agora pelas páginas de um livro. O caso dos assassinatos em série no bairro Danúbio Azul, em Campo Grande, que deixou 16 jovens mortos entre 2012 e 2016, inspira a obra “A Jornada dos Esquecidos”, escrita pela delegada Aline Sinnott Lopes.
Responsável por conduzir as investigações à época, Aline transforma em narrativa ficcional aquilo que define como uma experiência “visceral”. “Eram pessoas que a maioria quer esquecer”, resume, ao relembrar as vítimas — em sua maioria jovens em situação de vulnerabilidade, usuários de drogas, trabalhadores do sexo e pequenos infratores.
A trama se baseia em fatos reais que, segundo a autora, nem sempre receberam a devida atenção. Os desaparecimentos começaram de forma silenciosa, sem grande mobilização. Muitas vítimas sequer tiveram registros formais.
“Essas pessoas estavam sumindo e ninguém estava fazendo nada. Nem nós, porque muitos casos não chegavam oficialmente. Eram pessoas invisíveis para a sociedade”, relata.
As investigações avançaram em meio a um cenário de medo e desconfiança. Testemunhas relutavam em falar, e havia, segundo a delegada, até uma percepção distorcida de que os crimes representariam uma espécie de “limpeza social”.
“Chegamos a um ponto em que tivemos que fechar completamente o acesso à área onde os corpos eram encontrados. Precisávamos construir confiança com pessoas que também estavam à margem da sociedade”, relembra.
O caso revelou a atuação de um assassino em série que vitimava jovens — alguns com apenas 13 anos. Enquanto executava os crimes, o autor chegou a receber apoio de parte da população, o que, para Aline, foi um dos aspectos mais perturbadores da investigação.
“Ver pessoas aplaudindo alguém que tira vidas é algo que assusta. Isso revela muito sobre as falhas do sistema e sobre como a sociedade enxerga determinadas vítimas”, afirma.
Foi a partir desse impacto que surgiu a necessidade de escrever. Formada em Direito, Psicologia e Letras, a delegada começou a registrar memórias em cadernos, como forma de organizar emoções e dar sentido ao que viveu.
“Era preciso colocar aquilo para fora. A descrença, a tristeza, a sensação de ver a miséria sendo explorada de uma forma inimaginável”, diz.
O resultado é uma obra que mistura realidade e ficção, revelando bastidores da investigação e propondo uma reflexão sobre o valor da vida — independentemente de quem seja.
Mais do que revisitar um caso policial, A Jornada dos Esquecidos levanta uma provocação: quem são as vidas que a sociedade decide ignorar?
“A principal mensagem é que todo ser humano tem direito à sua existência. Ninguém pode interromper esse processo”, afirma a autora.
Um episódio marcante, segundo ela, resume a complexidade do caso. Ao comunicar a morte de uma das vítimas, ouviu de um pai: “meu filho tinha mesmo que ter morrido”. A fala, que chocou a equipe, foi seguida de uma justificativa: foi a partir daquela perda que outros corpos foram encontrados e a verdade começou a emergir.
“Isso mostra que toda vida tem um significado, mesmo quando a sociedade insiste em não enxergar”, conclui.
Lançamento: A Jornada dos Esquecidos
Data: 28 de maio de 2026
Horário: 18h30
Local: Adepol-MS – Rua Dr. Robison Benedito Maia, 321, Carandá Bosque, Campo Grande
Pré-venda: disponível online
Instagram: @aline_sinnott
Tags: ficção, investigação policial, Literatura,