Campo Grande - quinta-feira, 25 de junho de 2026
Pesquisa liderada pela UFMS reúne especialistas de Harvard e Paris 8 para transformar sons do bioma em criação musical
Michelly Perez - 25/02/2026 • 10:17
Foto: UFMS
O som do vento, o canto das aves e até o rugido do macaco bugio estão ganhando um novo papel: virar música e ciência ao mesmo tempo. É essa a proposta do projeto internacional Pantanal Sounds, que reúne pesquisadores brasileiros e estrangeiros para transformar relações ecológicas do bioma em criação musical contemporânea.
Coordenado pelo professor William Teixeira, da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, o estudo parte da chamada ecologia sonora — área que investiga como os sons de um ambiente revelam o equilíbrio (ou desequilíbrio) dos ecossistemas.
“Em alguns casos, os sons foram utilizados em estado próximo ao original; em outros, passaram por processos de decomposição espectral, separação de fontes sonoras e modelagens computacionais. Utilizamos algoritmos que permitem isolar camadas acústicas e analisar relações entre espécies dentro de um mesmo ambiente”, diz.
A iniciativa conecta a UFMS a instituições de peso, como a Universidade de Harvard e a Universidade Paris 8, formando uma rede internacional que une pesquisa científica, tecnologia e composição musical.
Os pesquisadores analisam as chamadas paisagens sonoras do Pantanal — o conjunto de sons produzidos por animais, água, vento e atividade humana. Segundo o grupo, o áudio do ambiente funciona quase como um “raio-X” ecológico. Duas peças estão disponíveis para visualização: Tóté, por José Henrique Padovani e A monada encontra o violoncelista no Pantanal, por Rael Gimenes.

Entre os achados:
Sons revelam acordos e disputas entre espécies
Lacunas acústicas podem indicar desequilíbrios ambientais
Ruídos de motores e máquinas mostram a pressão humana sobre o bioma
A diversidade sonora funciona como indicador de saúde ecológica
Para chegar a esses resultados, a equipe realizou gravações de campo na Base de Estudos do Pantanal da UFMS, no Passo do Lontra, e utilizou algoritmos capazes de separar e analisar camadas acústicas.
Os sons coletados não ficam só na pesquisa: eles viram obras musicais experimentais. Em alguns casos, os áudios são usados quase intactos; em outros, passam por modelagens computacionais e decomposição espectral.
A ideia é que a música funcione como ponte entre ciência e sociedade.
Segundo o coordenador, a experiência sonora pode despertar uma percepção ambiental que dados técnicos sozinhos nem sempre conseguem provocar. O objetivo é que o público não apenas entenda o Pantanal — mas sinta o bioma.
As primeiras peças já estrearam em Paris em 2025 e novas apresentações estão previstas para 2026, incluindo eventos internacionais e uma turnê nos Estados Unidos.
O projeto também tem atraído atenção de outras iniciativas globais de arte e ecologia e deve resultar na criação de um acervo sonoro permanente do Pantanal.
Para os pesquisadores, a mensagem é clara: ouvir o território também é uma forma de preservá-lo.