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Campo Grande - quinta-feira, 25 de junho de 2026

A ponto de quadriplicar: casos de tuberculose avançam e população encarcerada é a mais afetada

Superlotação, falta de ventilação e acesso limitado à cuidados de saúde são alguns dos responsáveis

Marcos Maluf - 15/10/2024 • 17:11

Foto: Marcos Maluf

 

Pesquisa inédita desenvolvida pela Fiocruz indicou que o encarceramento é o principal fator de risco para a tuberculose, fazendo com que as taxas sejam 26 vezes maiores entre os privados de liberdade do que na população da América do Sul.

Levando em conta dados de 1990 a 2023, foi publicado nesta terça-feira (15) no “The Lancet Public Health”, o estudo “Encarceramento em massa como motor da epidemia de tuberculose na América Latina e impactos projetados de alternativas políticas: um estudo de modelagem matemática”.

Fato que chama a atenção é quando se observa que na América Latina, a população em privação de liberdade quase quadruplicou nos últimos 30 anos, junto com a explosão de prisões em nível mundial, 10,6 milhões de pessoas desenvolveram tuberculose em 2022. Embora a incidência global de tuberculose tenha diminuído 8,7% desde 2015, na América Latina a ocorrência de casos de tuberculose aumentou 19% no mesmo período.

Com isso, a pesquisa também verificou que o aumento da privação de liberdade desde 1990 resultou num número estimado de 34.393 casos excessivos de tuberculose incidentes em 2019 nos seis países. Em 2019, 27,2% dos casos novos foram relacionados ao encarceramento, mais do que a porcentagem atribuível a qualquer outro fator de risco, incluindo HIV e desnutrição. Contudo, pontuou que intervenções poderiam reduzir em mais de 10% a futura incidência da tuberculose na população geral do Brasil, na Colômbia, na Argentina, em El Salvador e no Peru.

Dentre os fatores apontados como responsáveis para a contribuição de novos casos no sistema carcerário estão a superlotação registrada em boa parte dos centros penitenciários, inclusive de Mato Grosso do Sul, o sistema de ventilação precária, desnutrição e acesso limitado a cuidados de saúde. No ano passado, a PED (Penitenciária Estadual de Dourados) foi palco de um surto de furúnculos e sarna.

 

Falta de controle

Segundo o estudo, a contribuição total da privação de liberdade para a epidemia mais ampla de tuberculose na América Latina, pela subdetecção nas prisões e pelos efeitos de “repercussão” nas comunidades, nunca foi quantificada. O impacto regional de políticas alternativas de privação de liberdade na futura incidência de tuberculose na população é desconhecido.

 

Metodologia

Os pesquisadores criaram um cenário imaginário, no qual a quantidade de pessoas privadas de liberdade teria permanecido a mesma de 1990, e compararam com a situação real, onde o número de encarcerados cresceu muito. Essa comparação mostrou que quanto mais gente presa, maior o número de casos de tuberculose.

De acordo com o estudo, até à data, o verdadeiro impacto da privação de liberdade na epidemia de tuberculose em toda a região tem sido subestimado devido a um “foco estreito” nas doenças que ocorrem durante o encarceramento. A análise constatou que as intervenções que visam privação de liberdade podem ter efeitos “descomunais” sobre a epidemia mais ampla de tuberculose na América Latina – muito maiores do que anteriormente verificado. Os pesquisadores destacam que essas intervenções devem incluir não só estratégias para reduzir o risco de tuberculose entre indivíduos atualmente e anteriormente em privação de liberdade, mas também esforços para acabar com a privação de liberdade em massa.

Tags: Encarceramento, Fiocruz, Tuberculose,