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Campo Grande - terça-feira, 23 de junho de 2026

“Antes que a morte nos separe”: Defensoria Pública interrompe o ciclo de feminicídios em Mato Grosso do Sul

Trabalho dos defensores se torna escudo em um dos estados mais letais para mulheres no Brasil

Michelly Perez - 01/12/2025 • 17:21

Foto: Marcos Maluf

A cada seis horas, uma mulher é morta no Brasil. O medo, que deveria ser exceção em Mato Grosso do Sul, tornou-se rotina. Os trajetos mudam, os passos aceleram, as redes de apoio desmoronam — e o ciclo segue, incessante.

Em 2025, o Estado já contabilizou 37 feminicídios até novembro, superando todo o ano anterior. Mato Grosso do Sul é, proporcionalmente, um dos lugares onde mais se mata mulheres no país. Não por acaso, ele também é o palco de um movimento crescente de busca por ajuda: 392.422 atendimentos realizados pela Defensoria Pública só neste ano.

Os números, frios à primeira vista, revelam o que a defensora pública Kricilaine Oksman, coordenadora do Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres, define como “a ponta de uma epidemia silenciosa”.

“A mulher que chega até nós já enfrentou medos que não cabem nos relatórios. Muitas chegam depois de anos de violência — e outras, infelizmente, não chegam”, afirma.


Onde o risco tem nome e endereço 

No Nudem (Núcleo das Mulheres), onde a porta bate com urgência todos os dias, a realidade se materializa em pedidos de socorro: 3.806 medidas protetivas solicitadas em 2025, mais que o dobro do ano anterior. Em Campo Grande, o núcleo registrou 8.774 atendimentos, revelando um estado que vive à beira do colapso.

A maioria das mulheres atendidas tem um perfil recorrente: negras, solteiras, com idades entre 30 e 45 anos.

É o retrato das desigualdades que moldam a violência.

A desigualdade coloca mulheres vulneráveis no centro das estatísticas de violência. Foto: Marcos Maluf

“O feminicídio não é um crime súbito. Ele é o desfecho de uma história longa e cheia de alertas ignorados”, explica Kricilaine.

A equipe atua dentro da Casa da Mulher Brasileira, a primeira unidade do país, onde o atendimento foi ampliado para funcionar das 7h30 às 19h, com plantão permanente. É ali que, muitas vezes, a vida muda de direção.


Quando denunciar não encerra o perigo

A defensora pública Zeliana Sabala, Coordenadora Criminal de Segunda Instância lembra rotineiramente que “romper o ciclo exige mais que coragem — exige estrutura”.

Defensora Zeliana Sabala (Foto: Thayanne Moraes e Vitor Ilis- DPE/MS)

Por isso, a Defensoria firmou, em 2025, um convênio inédito com o Cowap/IPA e o Ibdfam, garantindo atendimento psicológico especializado para mulheres que chegam devastadas emocionalmente, muitas vezes após anos de violência.
A maioria não teria acesso rápido à saúde mental pela rede pública.

“Muitas não conseguem sequer relatar o que viveram sem desabar. O atendimento psicológico não é luxo — é a base para que essa mulher continue viva”, diz Zeliana.


Violência inicia cedo e corrói silenciosamente

Nos corredores do Nudeca (Núcleo dos Direitos da Criança e do Adolescente), outro tipo de urgência se forma: a que envolve crianças e adolescentes marcados pela violência sexual e doméstica.

Ao todo, foram 6.485 atendimentos em Campo Grande e 2.168 no interior.
Mas é um número que prende o ar: 233 vítimas de crimes, 65% delas de violência sexual.

Coordenador do Nudeca, defensor Edson Cardoso. (Foto: Thayanne Moraes e Vitor Ilis- dPE/MS)

“É a lembrança mais dura de que a violência contra a mulher começa ainda na infância e reverbera por gerações”, afirma o coordenador do núcleo, defensor público Edson Cardoso.


Os silêncios que explodem dentro de casa

Além das agressões físicas, cresce a violência patrimonial — aquela que tenta incapacitar a mulher, destruir sua independência e controlar cada recurso.
Para enfrentar essa faceta, a Defensoria fechou acordo com a Ecoa Perícias, permitindo avaliações gratuitas que comprovam danos materiais sofridos pelas vítimas.

São laudos emitidos em até 10 dias, abrindo caminho para reparações na Justiça.

Coordenadora do Nudem, defensora Kricilaine. (Foto: Thayanne Moraes e Vitor Ilis DPE/MS)

“Muitas mulheres eram desacreditadas quando denunciavam destruição de bens, bloqueio de contas, retenção de documentos. Agora, elas têm prova”, explica Kricilaine.


Onde a importunação sexual é diária

Durante a campanha dos 21 Dias de Ativismo, a Defensoria levou informação para os terminais de ônibus de Campo Grande, onde a importunação sexual ainda é naturalizada.

Defensora Zeliana Sabala reforça que importunação é crime e é dever denunciar (crédito da foto: Matheus Teixeira)

“A violência começa quando a mulher não pode existir em paz no espaço público”, afirma Zeliana.

A ação resultou em diversos relatos de casos — muitos nunca antes denunciados.


A mulher haitiana que enfim respirou

Entre os milhares de atendimentos, um caso, especialmente, sintetiza como a atuação da Defensoria pode ser a diferença entre desespero e recomeço.

Uma haitiana, mãe de duas crianças, vivia sob violência constante do ex-companheiro. Sem família no país, com o Bolsa Família bloqueado e sem renda, dividia-se entre medo e fome.

Vítima conseguiu se livrar do ciclo de violência. Foto: Marcos Maluf

A Defensoria conseguiu medida protetiva e, após ação das defensoras públicas Thais Dominato, Edmeiry Festi e Graziele Dias, garantiu auxílio-aluguel por seis meses.
Pela primeira vez em anos, ela pôde reorganizar a vida das crianças — e a sua.

“Esse tipo de suporte salva, literalmente”, afirma Thais.


Quando a Justiça olha para a dor

Em Ivinhema, um caso emblemático mostra que o Judiciário tem respondido com mais rigor: uma jovem de 25 anos, repetidamente agredida e enforcada pelo ex-companheiro, recebeu neste ano, a confirmação de que será indenizada em R$ 5 mil, além da condenação criminal do agressor.

Conforme os autos, em 7 janeiro de 2023 o acusado bateu na vítima, a qual procurou a delegacia. “Motivado por ciúmes, proferiu xingamentos, colocou as mãos em seu pescoço e a enforcou, o que fez com que ela perdesse a consciência, tendo acordado somente na madrugada do dia seguinte”, relata o defensor do caso, Seme Mattar Neto, da 1ª Defensoria de Ivinhema.

À época, o Ministério Público denunciou o homem e medidas protetivas foram fixadas. Ele não poderia ter contato com a vítima, o que fez em 24 de janeiro de 2023 por meio de mensagens de celular, sendo novamente denunciado. Em 22 de julho de 2025 foi intimado para dar início ao cumprimento das penas.

Ao entrar em contato com ex-companheira, agressor descumpriu medida protetiva (Foto: Reprodução)

“Ela foi ameaçada de morte várias vezes”, relata o defensor público Seme Mattar Neto.

Não é a reparação que apaga o trauma. Mas é a resposta que, por tanto tempo, não chegou para tantas outras mulheres.


Uma década sustentando vidas

O Núcleo de Defesa da Mulher completa onze anos em 2025. Mais de uma década de atuação em um Estado onde o feminicídio não é exceção — é realidade cotidiana.

Ali, cerca de 30 mulheres por dia encontram proteção, orientação e um primeiro respiro. Os números, crescentes, não traduzem somente o aumento da violência. Traduzem, também, algo maior:

O reconhecimento de que a Defensoria Pública tornou-se um farol. Um lugar onde mulheres chegam quebradas — mas não invisíveis.


“Antes que a morte nos separe”

Se o velho ditado do casamento foi usado por séculos como voto de união, hoje ele carrega, para muitas mulheres, um presságio sombrio.

Romper esse ciclo, antes que a morte chegue, é o que move cada atendimento, cada mutirão, cada defensor e defensora pública que atua na linha de frente.

Defensoria Pública de Campo Grande-MS (Foto: divulgação)

A Defensoria não é o fim da violência. Mas é, tantas vezes, o último abrigo — e o primeiro passo — para impedir que a próxima mulher de Mato Grosso do Sul vire estatística.

E para que, enfim, a promessa que une vidas deixe de parecer uma sentença.