Campo Grande - terça-feira, 23 de junho de 2026
Mantida em cárcere, a vítima relata que era proibida de tomar anticoncepcional
Michelly Perez - 14/03/2025 • 06:49
Foto: Marcos Maluf
A jornalista que optou por não ser identificada e receberá o nome fictício de “Maria”, por medo das consequências da impunidade que mantém o seu agressor solto, denunciou que os casos recentes envolvendo a morte de Vanessa Ricarte e a violência sofrida pela colega de profissão, mesmo com a filha no colo, são o reflexo da falta de políticas públicas contundentes que se arrastam desde 2007, quando ela também procurou ajuda para denunciar o seu ex-companheiro.
As agressões constantes e o impedimento de tomar anticoncepcional deram lugar a um filho. Mesmo com o avançar da gravidez e o nascimento do bebê em 2008, retornaram as ameaças. O que Maria não sabia é que, após enfrentar o preconceito da família por não ter um pai ao lado para criar o filho, ela ainda teria que enfrentar o descaso na delegacia, ao ser atendida por uma equipe de agentes que não viu “maldade” nas ameaças escritas em SMS. (Naquele ano, a Casa da Mulher Brasileira ainda não existia na Capital)
“Ele falava que queria a criança e eu fui na delegacia sozinha pedir ajuda. Chegando lá, só tinham homens e praticamente zombaram da minha cara, disseram que não tinha nada demais nas mensagens que eu mostrei. Na época ele falava por SMS que se eu não fosse dele, não seria de mais ninguém e que ele daria um fim nisso, mas isso não foi suficiente para o policial que me atendeu”, lamenta.
O namorado ideal, o amor avassalador, regado a palavras bonitas e um homem “segundo o coração de Deus”, todos estes fatores levaram “Maria” a se apaixonar e a acreditar no seu primeiro amor com todas as suas forças. O que ela não esperava é que, aos seus 18 anos e em menos de 30 dias, os indícios de agressões e violência começariam a atormentar a sua vida.
Tudo começou em 2007, com o companheirismo entre os colegas de trabalho, que não durou muito tempo e deu lugar a um romance logo que ambos foram transferidos da empresa em que trabalhavam na Capital para a cidade de Dourados, no interior do Estado.
“A culpa era sempre minha, ou por causa do batom, ou pelo cabelo que estava bonito. E isso tinha consequências, começou com puxões de cabelo como castigo, tapas nos braços e beliscões”.
De família cristã, ela cita que foi criada com a ideia de que a mulher deveria suportar tudo pela família. Além disso, relembra que na época a comunicação com os pais era restrita a ligações nos antigos “orelhões” ou por SMS. Com isso, acabou se vendo ‘presa’, já que o seu companheiro se escondia atrás da imagem de “príncipe encantado”, o que dificultou desmascará-lo.
“Quando comecei a falar alguma coisa achavam que eu estava exagerando, na minha família a mulher foi criada para aguentar as coisas e eu achava que era a ‘cruz’ que eu deveria carregar. Só que foi intensificando a um ponto, em que eu não podia tomar nem um anticoncepcional. Lembro que um dia um caminhoneiro passou próximo de onde estávamos andando e buzinou, e eu nem olhei para o lado, quando chegamos em casa eu fiquei com o rosto roxo”, conta.
No entanto, a máscara de “bom moço” foi caindo perante os colegas de trabalho. A mudança no comportamento de “Maria” foi um dos fatores que despertaram a dúvida sobre a relação. A jovem cheia de alegria e vida, que mantinha os cabelos e as unhas sempre bem cuidados, foi dando lugar a uma mulher amedrontada, que nem sequer podia usar as roupas levadas da Capital, já que o companheiro as queimou em um dia de fúria.
“Um dia em uma confraternização da empresa, logo ao entrarmos no evento fui cumprimentada com um beijo no rosto, não deu nem tempo de me afastar direito e ele já estava agredindo o colega de trabalho. Sem reação, eu sai correndo para casa e me tranquei no quarto dos fundos. Quando ele voltou para casa, horas depois e muito bêbado, arrebentou a porta e ali começou mais uma sessão de tortura. Diante da gravidade dos hematomas, ele me deixou trancada muitos dias”, relembra.
No quartinho, Maria permaneceu, quase sem água, por muitos dias. Para os colegas de trabalho, o agressor inventou uma desculpa esfarrapada e disse que ela teria retornado para Campo Grande. No momento de maior angústia e dor, ela descobriu que a falta do anticoncepcional tinha dado lugar a um bebê.
Após a descoberta, o ‘Homem de Deus’ reapareceu (por pouco tempo). Consciente de tudo o que tinha feito, ele mais uma vez tentou pedir perdão e mostrar que era uma nova “criatura”. Para isso, usou desde cenas no meio da rua, onde se ajoelhava na frente das pessoas, pedia desculpas e usava a palavra de Deus para dizer que estava mudando. Após os lapsos de “clareza”, retornavam as ameaças, inclusive, justificadas como forma de “amor”.
“Num dia eu deixei um bilhetinho para os colegas de trabalho pedindo ajuda e eles me ajudaram a sair de lá e voltei para Campo Grande”.
Quatro anos depois, como um “fantasma”, o agressor reapareceu. Com o filho pequeno e totalmente dependente dela, a jovem descobriu o endereço do ex-companheiro e foi mais uma vez até a delegacia em busca de ajuda e, mais uma vez, ouviu “que não tinha informações suficientes”. Após insistência, o homem acabou preso por uns dias, mas logo foi colocado em liberdade.
Em 2021, Maria relembra quando recebeu a notícia de que o agressor estava novamente preso, desta vez, por violência doméstica. Ela reforça que a nova vítima (também jornalista) até a acionou para que fossem juntas na delegacia, mas “Maria”, vulnerável e à mercê da impunidade, desistiu de buscar ajuda.
O caso se assemelha ao de Vanessa Ricarte, a jornalista que buscou ajuda e, mesmo com o histórico de agressões do seu ex-companheiro Caio Nascimento, voltou para casa sozinha e vulnerável.
“O que aconteceu com a Vanessa foi o depois! Depois da denúncia ela foi desamparada ao buscar suas roupas, depois da denúncia esse homem iria receber um papel informando que não poderia chegar perto dela, depois da denúncia, ela ficaria ainda mais vulnerável, pois teria um homem louco com muita mais raiva por ela ter ‘fichado’ ele…”, frisa “Maria”.
Ela ainda destaca que, além das falhas na rede de proteção, a vítima é sempre julgada, mas poucos buscam entender o medo de quem vive 24 horas por dia com um homem que diz ser o ‘par perfeito’.
“É muito fácil julgar as nossas mulheres por não terem olhado a ficha criminal, mas é muito difícil você conseguir analisar esse histórico criminal (sempre estão em sigilo) e na parte comportamental são pessoas que não demonstram que são problemáticas. O perfil que eles mais buscam são as mulheres carentes, com medo da solidão. A orientação é fundamental, eu não tive nenhuma, então não vejo efetividade no sistema e, na minha visão, muitas não fazem denúncias por medo do ‘depois’ desse processo”, finaliza.
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