Campo Grande - terça-feira, 23 de junho de 2026
Urbanização acelerada, mudanças climáticas e espécies cada vez mais adaptadas às cidades explicam o avanço do escorpionismo
Michelly Perez - 28/02/2026 • 07:00
Foto: Ministério da Saúde
Os acidentes por picada de escorpião cresceram de forma alarmante na última década no Brasil. Dados do Ministério da Saúde apontam que as notificações saltaram de cerca de 85 mil em 2015 para mais de 200 mil em 2023 — o maior número da série histórica. O aumento representa uma alta de 230% em comparação ao período entre 2005 e 2015.
O fenômeno consolidou o escorpionismo como um dos principais problemas de saúde pública do país e acendeu o alerta de pesquisadores. Para a bióloga Denise Candido, do Biotério de Artrópodes do Instituto Butantan, o crescimento expressivo é resultado de uma combinação de fatores ambientais e urbanos.
“Ao mesmo tempo em que o ser humano invade o habitat natural do escorpião, ele cria as condições ideais para que o animal se prolifere”, explica.
O avanço desordenado das cidades, aliado à falta de saneamento e ao acúmulo de lixo, cria ambientes perfeitos para a proliferação de baratas — principal alimento dos escorpiões. Redes subterrâneas de esgoto e água também funcionam como corredores de dispersão, permitindo que o animal se espalhe com facilidade.
Em São Paulo, assim como em Campo Grande, por exemplo, o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus) passou a predominar em diversas regiões. Mais adaptável ao ambiente urbano que o escorpião-marrom (Tityus bahiensis), ele possui uma característica que preocupa especialistas: reproduz-se por partenogênese, ou seja, as fêmeas não precisam de machos para gerar descendentes.
“Um único indivíduo pode originar toda uma população se tiver alimento, abrigo e água — condições abundantes nas cidades”, alerta a pesquisadora.
O aumento das temperaturas também impulsiona o problema. Escorpiões ficam mais ativos no calor, período em que buscam alimento e se reproduzem com mais intensidade. Não por acaso, os acidentes aumentam a partir de outubro.
Além disso, o desmatamento tem levado espécies antes restritas a áreas de floresta a invadir centros urbanos. O escorpião-preto-da-amazônia (Tityus obscurus) e o escorpião-preto (Tityus metuendus), por exemplo, já são encontrados com frequência em residências na região Norte. O escorpião-do-nordeste (Tityus stigmurus), altamente adaptável, também expandiu sua presença para o Sul e Sudeste.
Pesquisadores ainda registram o avanço de espécies de interesse médico comuns na Argentina, como Tityus confluens e Tityus trivittatus, no Centro-Oeste e Sudeste brasileiros — um possível reflexo das mudanças ecológicas em curso.
Presentes na Terra há cerca de 450 milhões de anos, os escorpiões são extremamente adaptáveis. Conseguem suportar longos períodos sem alimento, resistem à submersão em água e possuem mecanismos sensoriais capazes de detectar vibrações no ambiente.
O uso de produtos químicos, segundo especialistas, tem eficácia limitada. Quando não morrem, os animais tendem a sair de seus esconderijos, aumentando o risco de contato com humanos. A busca ativa e a coleta manual por equipes treinadas seguem como os métodos mais eficazes de controle.
Parte do aumento nas notificações também se deve à modernização dos sistemas de vigilância em saúde. Hoje, os registros são digitais e alimentam plataformas atualizadas em tempo real. Ainda assim, os especialistas são categóricos: há, sim, um crescimento real no número de acidentes.
As projeções indicam que os casos devem continuar aumentando nas próximas décadas, especialmente em cidades com pouca cobertura vegetal e escassez de predadores naturais, como sapos, corujas e lagartos.

O alerta está dado: o escorpião já se adaptou às cidades — e o desafio agora é aprender a conviver com menos risco.
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