Campo Grande - quinta-feira, 25 de junho de 2026
Aos 58 anos, morador de Nova Andradina sofria com limitações severas há 15 anos;
Michelly Perez - 17/03/2026 • 08:01
Foto: HR3L
Por quinze anos, a vida de Gilberto Barbieri foi ditada pelo ritmo involuntário dos tremores. O que começou como um incômodo sutil nas mãos transformou-se em uma rotina de dependência, onde tarefas simples se tornaram desafios monumentais.
“Não tenho mais a vitalidade que tinha antes. Tudo piorou na minha vida com a chegada da doença“, desabafa o servidor público aposentado, de 58 anos.
Mas, nesta semana, a história de Gilberto ganhou um capítulo de superação que também entra para os anais da medicina de Mato Grosso do Sul. Ele foi o primeiro paciente a realizar, pelo SUS, a cirurgia de Estimulação Cerebral Profunda (DBS) no Estado, realizada no Hospital Regional da Costa Leste Magid Thomé, em Três Lagoas.
A cirurgia consiste na implantação de eletrodos em áreas profundas do cérebro responsáveis por modular os circuitos ligados ao controle dos movimentos. Conforme explica o médico neurocirurgião Eduardo Cintra Abib, responsável pelo procedimento, os eletrodos são implantados em uma região chamada núcleo subtalâmico.
“Colocamos um eletrodo de cada lado do cérebro, porque cada hemisfério controla o lado oposto do corpo.”, detalhou.
Após o implante, os eletrodos são conectados a um pequeno dispositivo semelhante a um marca-passo, implantado na região do peito. O aparelho envia impulsos elétricos ao cérebro que ajudam a regular a atividade responsável pelos movimentos.
O neurocirurgião esclarece que nem todos os pacientes com Parkinson podem realizar esse tipo de cirurgia. Eles devem ter pelo menos cinco anos de tratamento, já ter utilizado diferentes tipos de medicamentos e estar em um estágio da doença no qual os remédios já não conseguem mais controlar bem os sintomas. Nesses casos, a cirurgia pode reduzir em até 80% a necessidade de medicamentos.
Morador de Nova Andradina, Gilberto enfrentava o estágio avançado da doença, onde os medicamentos já não ofereciam o alívio necessário. Ele chegava a ingerir doses de remédios a cada três horas, sofrendo com efeitos colaterais como perda de peso e movimentos discinéticos (involuntários).
A operação, liderada pelo neurocirurgião Eduardo Cintra Abib, é um espetáculo de tecnologia e perícia. Para garantir que os eletrodos sejam posicionados no local exato do cérebro — o núcleo subtalâmico —, o paciente permanece acordado durante parte do processo.
“É um trabalho milimétrico. Testamos os estímulos com o paciente consciente para observar a melhora imediata da rigidez e dos tremores”, explica a equipe médica.
Após o implante cerebral, um pequeno gerador é colocado sob a pele do tórax, funcionando como um “marca-passo” que regula os sinais elétricos do cérebro.
Gilberto recebeu alta no último dia 8 de março, apenas três dias após o procedimento. Agora, ele inicia a fase de ajuste do dispositivo, com a expectativa de reduzir em até 80% o uso de medicamentos pesados.
O sucesso do caso de Gilberto coloca o Hospital Regional de Três Lagoas, gerido pelo Instituto Acqua em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde (SES), como uma referência em alta complexidade no interior.
Para Gilberto, os números e termos técnicos importam menos do que a nova perspectiva que se abre: a possibilidade de caminhar, comer e viver sem o domínio constante dos tremores. Sua coragem abriu as portas para que outros sul-mato-grossenses, que aguardam pelo mesmo sonho, vejam que o “concreto” da cura está mais perto do que nunca.