Campo Grande - quinta-feira, 25 de junho de 2026
HU-UFGD acolhe a alma Guarani Kaiowá e prova que o respeito à cultura é o primeiro passo para a recuperação
Michelly Perez - 03/02/2026 • 07:45
Foto: divulgação
Entre o bipe dos monitores e o silêncio dos corredores brancos, um som novo e ancestral começou a ecoar na Clínica Pediátrica do Hospital Universitário da UFGD. Não era um som metálico, mas o sussurro de preces milenares. Em um movimento que toca o coração e desafia preconceitos, o hospital abriu suas portas para a medicina tradicional Guarani Kaiowá, permitindo que a ciência e a espiritualidade caminhem, finalmente, de mãos dadas.
O ambiente muitas vezes frio de uma unidade de saúde ganhou o calor da aldeia Jaguapiru. A rezadeira Ñandesy Floriza Souza trouxe consigo o Ñevanga — a reza que acalma a alma — e o pohã ñanã, os medicamentos tradicionais extraídos da natureza.
Para uma criança indígena, longe de sua terra e de seus costumes, ouvir sua língua materna e sentir o cheiro das ervas sagradas é como receber um abraço que diz: “você não está sozinho”.
Para o povo Guarani Kaiowá, a saúde não é algo que se conserta apenas com comprimidos; é um equilíbrio delicado entre o corpo, o espírito e a comunidade. Por isso, a presença de intérpretes e o apoio do Comitê de Saúde Indígena transformaram o hospital em um porto seguro.
“O processo de cuidado vai muito além do tratamento biomédico. Ele envolve a espiritualidade e as formas tradicionais de cura”, explica Alan Simon, vice-coordenador do comitê.
Quando o hospital respeita o desejo de um paciente de receber sua reza, ele não está apenas cumprindo um protocolo, está salvando uma identidade.
Essa corrente de solidariedade e respeito está ganhando raízes definitivas. No terreno do próprio hospital, uma Casa de Reza está sendo erguida. Onde antes havia apenas concreto, haverá um espaço de acolhimento intercultural, um santuário onde as práticas ancestrais poderão ser realizadas com a segurança e a dignidade que o povo indígena merece.
O superintendente Hermeto Paschoalick resume o sentimento que guia essa transformação: ao incluir o saber tradicional, o cuidado se torna humano, integral e, acima de tudo, verdadeiro. É a prova viva de que, quando o hospital entende a cultura do outro, a cura acontece mais rápido, porque o coração descansa em solo conhecido.
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