ícone whatsapp

Capa • As melhores do mês

Campo Grande - terça-feira, 23 de junho de 2026

Pacientes esquecidos em filas invisíveis levam Defensoria à Justiça contra crise na saúde de Campo Grande

Pacientes em corredores, macas improvisadas e até ambulâncias motivaram ações judiciais que cobram medidas urgentes

Michelly Perez - 23/06/2026 • 08:25

Foto: Defensoria Pública

Pacientes internados há meses, alguns há mais de dois anos, à espera de cirurgias e procedimentos essenciais. Pessoas em corredores, macas improvisadas e até dentro de ambulâncias, sem previsão de atendimento. Esse é o cenário que levou a Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul a recorrer à Justiça para cobrar medidas emergenciais diante do que classifica como uma situação de desassistência estrutural na rede pública de saúde de Campo Grande.

Por meio do Núcleo de Atenção à Saúde (NAS), a instituição ajuizou pelo menos três ações civis públicas para garantir o atendimento de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) que aguardam procedimentos ortopédicos e cardiológicos considerados indispensáveis.

Judicialização inevitável

Segundo a coordenadora do núcleo, defensora pública Eni Maria Sezerino Diniz, a medida foi adotada após sucessivas tentativas de solução pela via administrativa, incluindo reuniões com gestores, envio de ofícios e participação em discussões do Comitê Estadual de Saúde ligado ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Sem avanços concretos, a judicialização tornou-se inevitável.

As ações revelam a existência de uma espécie de “fila invisível” dentro da Santa Casa de Campo Grande. São pacientes que recebem indicação médica para cirurgias ou outros procedimentos, mas acabam ficando fora do sistema de regulação, sem transferência para outras unidades e sem qualquer perspectiva de atendimento.

Na prática, essas pessoas permanecem internadas por tempo indeterminado, ocupando leitos ou espaços improvisados enquanto aguardam por tratamentos que não têm data para acontecer. Em muitos casos, familiares acabam recorrendo individualmente à Justiça para garantir um direito que deveria ser assegurado pelo fluxo regular do SUS.

“O que pedimos são medidas concretas para atender pacientes que estão desassistidos dentro da unidade hospitalar. Não se trata de justificativas, mas da continuidade efetiva do tratamento”, afirmou a defensora pública Eni Diniz.

Um dos principais focos das ações envolve pacientes ortopédicos que aguardam a retirada de materiais de síntese, como pinos, hastes e fixadores implantados durante cirurgias. Levantamento do NAS aponta casos de espera superior a dois anos, incluindo crianças de 4, 8 e 9 anos e uma idosa de 87 anos.

A permanência desses dispositivos além do período clinicamente recomendado, segundo a Defensoria, pode provocar dores crônicas, limitações de movimentos, infecções graves, osteomielite, sepse e até levar à morte.

Os levantamentos também identificaram documentos internos da Santa Casa que apontam restrições em procedimentos eletivos e em serviços de anestesiologia em razão de pendências financeiras envolvendo equipes médicas, situação que afeta diretamente a continuidade dos tratamentos.

Internação por 32 dias por marca-passo

Outra frente de atuação do NAS diz respeito à falta de marca-passos, cardiodesfibriladores e outros dispositivos cardíacos. Em um dos casos acompanhados pela Defensoria, um paciente permaneceu internado por 32 dias aguardando a chegada de um marca-passo. Após a disponibilização do equipamento, o procedimento foi concluído em apenas 45 minutos.

Para a instituição, a demora expõe pacientes a riscos clínicos desnecessários, além de gerar sofrimento emocional e custos adicionais para o próprio sistema de saúde.

Busca por soluções

As ações já começaram a ser analisadas pelo Poder Judiciário. As partes envolvidas foram intimadas a se manifestar em até 72 horas, e uma audiência foi marcada para o próximo dia 25 de junho na tentativa de construir soluções conjuntas.

Para a Defensoria Pública, pacientes do SUS não podem permanecer em um limbo assistencial, à espera de cirurgias, transferências ou tratamentos, enquanto impasses administrativos e financeiros se prolongam sem prazo para resolução.

“O direito à saúde não pode depender da persistência das famílias nem da necessidade de ações judiciais individuais para garantir atendimentos básicos”, sustenta a instituição.

Tags: Defensoria pública, Fila, saúde,