Campo Grande - terça-feira, 23 de junho de 2026
Corte de 25% na energia e o balcão fechado às 13h30, gestão tenta equilibrar as contas
Michelly Perez - 03/03/2026 • 08:00
Foto: reprodução
O decreto n. 16.556, assinado pela prefeita Adriane Lopes no apagar das luzes de fevereiro, é o retrato de uma gestão que tenta trocar o pneu com o carro em movimento — e sem estepe. O texto, recheado de eufemismos técnicos como “sustentabilidade financeira” e “racionalização de recursos”, esconde uma realidade indigesta: a máquina pública de Campo Grande entrou em regime de subsistência.
A partir de 1º de março, o cidadão que precisar de serviços municipais no período da tarde encontrará portas fechadas. O novo horário de atendimento, das 07h30 às 13h30, é a face mais visível de um pacote que sacrifica a prestação de serviço no altar do ajuste fiscal. A justificativa oficial evoca a modernização e a digitalização, mas o corte linear de 25% em insumos básicos como água, luz e combustível (art. 5º) sugere menos estratégia e mais desespero.
Para o servidor, o decreto é um balde de água fria. Ao mesmo tempo em que exige que cargos de chefia permaneçam até as 17h para trabalho interno, o documento veda explicitamente o pagamento de horas extras ou gratificações por esse excedente. É a institucionalização do “trabalhe mais, receba o mesmo”, sob o risco de responsabilização administrativa para quem não cumprir as metas de economia.
Além disso, o bloqueio de novas nomeações e a proibição de gratificações para substitutos criam um efeito cascata de desmotivação. Ao restringir a entrada de novos quadros apenas para vagas de aposentadoria ou falecimento — e ainda assim sob rígida análise de “essencialidade” —, a prefeitura admite que a folha de pagamento atingiu o teto da lei de responsabilidade fiscal, deixando pouco espaço para o crescimento prometido nas campanhas.
Não foram apenas os servidores que sentiram o golpe. O art. 6º do decreto ordena uma renegociação agressiva de todos os contratos vigentes. A ordem é clara: obter descontos ou reduzir quantidades, sob pena de rescisão. Essa “frente de negociação” coloca em xeque a qualidade das obras e serviços terceirizados na Capital, uma vez que o limite entre a economia e a precarização é perigosamente tênue.
Com validade inicial até 30 de junho de 2026, as medidas funcionam como um balão de ensaio. O parágrafo único do art. 9º prevê avaliações bimestrais, o que sinaliza que o arrocho pode se tornar o “novo normal” da Capital sul-mato-grossense.
Se o decreto n. 16.556 conseguirá equilibrar as contas sem paralisar a cidade, só o tempo dirá. Por ora, o campo-grandense terá que se acostumar com uma prefeitura que funciona “meio período”, enquanto a gestão tenta provar que o aperto de cinto é um sinal de eficiência, e não o anúncio de uma emergência fiscal que ninguém quer admitir.
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