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Campo Grande - terça-feira, 7 de julho de 2026

Primeiro raio-X da intervenção expõe dívida milionária, frota sucateada e risco de fim do Consórcio Guaicurus

Relatório preliminar confirma falhas apontadas pela CPI e interventores admitem que concessão pode caminhar para a caducidade

Michelly Perez - 07/07/2026 • 09:52

Foto: Izaías Medeiros

Menos de um mês após a Prefeitura assumir a intervenção no Consórcio Guaicurus, o primeiro diagnóstico técnico já revelou um cenário de graves problemas administrativos, financeiros e operacionais que reforçam as suspeitas levantadas pela CPI do Transporte Coletivo da Câmara Municipal.

Dívida de aproximadamente R$ 20 milhões de uma das empresas integrantes, frota envelhecida, ausência de manutenção preventiva e falhas na gestão aparecem entre os primeiros achados dos interventores, apresentados nesta segunda-feira (6) aos vereadores.

Embora a auditoria completa ainda esteja em andamento, o relatório preliminar aumenta a possibilidade de que a intervenção termine na caducidade do contrato de concessão — medida que extingue antecipadamente o vínculo entre o Município e o Consórcio por descumprimento das obrigações contratuais.

“O campo-grandense espera uma mudança de verdade. O transporte coletivo pertence ao Município, não à empresa. Quem presta o serviço precisa atender à população, e não o contrário”, afirmou o presidente da Câmara, vereador Papy (PSDB), ao defender que o atual modelo de concessão demonstra sinais claros de esgotamento.

Segundo ele, o histórico das intervenções em concessões públicas pelo país aponta para esse desfecho.

“Hoje praticamente não há espaço para continuidade do Consórcio no formato em que está. As intervenções normalmente terminam com a caducidade.”

Primeiros problemas aparecem em apenas 20 dias

O interventor-geral Alexandro Adriano Lisandro de Oliveira explicou que a prioridade inicial foi garantir que ônibus continuassem circulando normalmente, tranquilizando passageiros, funcionários e fornecedores.

Superada essa fase, começaram as análises técnicas.

O resultado inicial aponta um sistema operacional considerado ultrapassado, com reflexos diretos na gestão da empresa e na prestação do serviço.

Além disso, uma das empresas que compõem o Consórcio acumula cerca de R$ 20 milhões em dívidas com bancos e fornecedores, incluindo empresas de combustíveis, situação que encarece a operação e dificulta a manutenção da frota.

Outro problema identificado é o estado dos veículos.

Segundo os interventores, a manutenção preventiva praticamente deixou de existir, sendo realizada apenas a manutenção corretiva — quando o ônibus já apresenta defeitos —, cenário que ajuda a explicar as constantes queixas de usuários sobre panes e atrasos.

Relatório da CPI ganha força

As constatações apresentadas pelos interventores praticamente reproduzem as conclusões da CPI do Transporte Coletivo, encerrada pela Câmara em setembro do ano passado.

Após mais de 50 horas de depoimentos e análise de documentos técnicos, financeiros e operacionais, a comissão concluiu que o Consórcio descumpria diversas cláusulas do contrato e recomendou duas medidas consideradas drásticas: a substituição imediata de 197 ônibus acima da idade máxima permitida e a intervenção na concessionária — decisão posteriormente adotada pela Prefeitura.

A possibilidade de caducidade também constava entre as recomendações da comissão.

Para a relatora da CPI, vereadora Ana Portela, o diagnóstico apresentado nesta segunda-feira demonstra que o trabalho do Legislativo estava correto.

Ela voltou a cobrar fiscalização permanente por parte da Agetran e da Agereg para evitar que os mesmos problemas se repitam em um futuro contrato.

Decisão sai apenas em 2027

Apesar das primeiras irregularidades já identificadas, os interventores afirmam que ainda não é possível decretar o fim da concessão. O prazo oficial da intervenção é de 180 dias.

Até dezembro será elaborado um relatório técnico conclusivo com auditoria financeira, contratual e operacional completa, além de recomendações administrativas. A decisão final da prefeita Adriane Lopes sobre a manutenção ou extinção da concessão está prevista para janeiro de 2027.

Enquanto isso, a intervenção continuará aprofundando a análise sobre a execução do contrato firmado entre o Município e o Consórcio Guaicurus.

Tags: Consórcio, politica, Transporte,